Por Tácito Loureiro
Uma cidade pode medir o crescimento pela expansão imobiliária, pela circulação econômica ou pela quantidade de veículos nas avenidas. Entretanto, existe outro indicador silencioso que atravessa consultórios, escolas, empresas e lares: o sofrimento psíquico. No Município de Dourados, assim como em diversas regiões brasileiras, cresce a percepção de ansiedade, exaustão, depressão e esgotamento emocional. Ainda assim, grande parte dessa dor continua sendo interpretada como deficiência pessoal, falta de esforço ou incapacidade de adaptação.
Em corredores de hospitais, salas de aula e ambientes corporativos, frases aparentemente inofensivas revelam uma lógica profundamente enraizada: “é preciso ser forte”, “basta reagir”, “falta determinação”. O sofrimento deixa de ser compreendido como fenômeno coletivo e passa a ser tratado como falha privada. A consequência aparece no isolamento de milhares de pessoas que carregam culpa por dores produzidas, em grande medida, por condições econômicas, sociais e culturais.
Dourados vive transformações intensas. A expansão urbana, a pressão econômica, as desigualdades territoriais, as jornadas extensas de trabalho e a insegurança diante do futuro modificam a experiência cotidiana. Famílias enfrentam dificuldades financeiras, trabalhadores convivem com metas exaustivas e estudantes lidam com expectativas cada vez maiores. Nesse cenário, a saúde mental torna-se questão pública, embora ainda receba tratamento predominantemente individual.
A lógica contemporânea estimula desempenho constante. O fracasso passa a ser interpretado como responsabilidade exclusiva do indivíduo, mesmo quando as circunstâncias sociais produzem esgotamento. Uma pessoa desempregada sente vergonha; outra, sobrecarregada pelo trabalho, considera a própria exaustão sinal de fraqueza; estudantes atribuem a ansiedade a defeitos pessoais. A sociedade produz a ferida e, posteriormente, responsabiliza quem sangra.
A pandemia apenas ampliou fenômenos que já estavam presentes. O medo, o luto, a instabilidade econômica e a ruptura de vínculos sociais deixaram marcas profundas. Contudo, passados alguns anos, parte do debate público voltou a exigir produtividade imediata. Muitos trabalhadores retornaram a ambientes de pressão intensa, enquanto adolescentes e jovens passaram a conviver com cobranças permanentes e exposição contínua nas redes digitais.
Uma pergunta emerge diante desse cenário e desafia paradigmas consolidados: quantas doenças consideradas individuais representam, na verdade, sintomas de uma sociedade incapaz de oferecer pertencimento, descanso e sentido coletivo? A resposta exige coragem política e intelectual, pois desloca a discussão do consultório para as estruturas econômicas, educacionais e culturais.
Especialistas em saúde mental apontam que sofrimento psíquico não pode ser reduzido a diagnósticos ou medicamentos. Fatores como renda, moradia, acesso a serviços públicos, violência urbana, discriminação e insegurança alimentar influenciam diretamente o equilíbrio emocional. Quando o debate ignora essas dimensões, cria-se uma narrativa na qual indivíduos adoecem isoladamente, como se existissem fora da realidade social.
Nas escolas, o problema adquire contornos preocupantes. Jovens enfrentam pressões ligadas ao desempenho acadêmico, ao mercado de trabalho e aos padrões de sucesso difundidos pela internet. Muitos convivem com sensação permanente de insuficiência. A comparação contínua produz ansiedade, enquanto a linguagem da meritocracia transforma dificuldades concretas em defeitos pessoais.
No ambiente de trabalho, o sofrimento recebe novos nomes: baixa performance, desmotivação ou falta de resiliência. Empresas frequentemente investem em discursos motivacionais, embora deixem de discutir jornadas excessivas, metas inalcançáveis e ambientes emocionalmente desgastantes. O trabalhador passa a administrar individualmente problemas produzidos coletivamente, acumulando culpa e silêncio.
A imprensa regional possui papel decisivo nesse debate. O jornalismo de qualidade não apenas relata números de atendimentos ou estatísticas de adoecimento. Também investiga causas estruturais, ouve profissionais, famílias, trabalhadores e gestores públicos. Ao iluminar as conexões entre saúde mental e condições sociais, a reportagem amplia o entendimento da comunidade e rompe narrativas simplificadoras.
Dourados encontra-se diante de um desafio contemporâneo: reconhecer que sofrimento psíquico não representa fraqueza moral nem incapacidade individual. Trata-se de fenômeno complexo, relacionado ao trabalho, à desigualdade, ao isolamento, à violência e às transformações da vida urbana. Ignorar essas relações significa perpetuar a culpa e aprofundar o silêncio.
Quando uma sociedade transforma dor em fracasso pessoal, perde a capacidade de enxergar as próprias feridas. O debate sobre saúde mental exige menos julgamento e maior disposição para compreender o contexto coletivo. Afinal, talvez a pergunta mais urgente do presente não seja por que tantas pessoas adoecem, mas por que tantas estruturas sociais continuam produzindo sofrimento e responsabilizando justamente quem já carrega o peso da dor.