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O paradoxo da telona: o cinema brasileiro nunca foi tão grande nem tão vazio

Publicada em: 19/06/2026 07:27 -

 

Há 128 anos, um italiano radicado no Rio de Janeiro apontou um cinematógrafo trazido da França para a entrada da Baía de Guanabara e registrou, sem saber, o primeiro fotograma de uma história que ainda está sendo escrita. Afonso Segreto não podia imaginar que aquele gesto simples — uma câmera, um navio, um pedaço de mar — fundaria uma das cinematografias mais paradoxais do planeta. Em 2026, o Brasil comemora o Dia do Cinema Nacional na posição mais estranha de sua trajetória centenária: nunca foi tão respeitado fora de casa, e raramente foi tão ignorado dentro dela.

O contraste é quase didático. Há pouco mais de um ano, Fernanda Torres subia ao palco do Oscar como melhor atriz indicada e o Brasil finalmente erguia sua primeira estatueta de Melhor Filme Internacional, por "Ainda Estou Aqui". Meses depois, Wagner Moura repetia o feito simbólico ao vencer o Globo de Ouro por "O Agente Secreto", de Kleber Mendonça Filho — o mesmo filme que, neste ano, voltou a representar o país na temporada de prêmios. Dois Oscars, dois Globos de Ouro, dezenas de troféus em Cannes, Veneza, San Sebastián. Por qualquer métrica de prestígio, o cinema brasileiro vive seu momento mais luminoso desde a Retomada dos anos 1990.

E, no entanto, os números das bilheterias contam outra história. Segundo dados da Agência Nacional do Cinema, os filmes nacionais responderam por apenas 7,1% da bilheteria brasileira nas primeiras catorze semanas de 2026 — uma queda brutal frente aos 26% do mesmo período em 2025, quando "Ainda Estou Aqui" e "O Auto da Compadecida 2" ainda enchiam salas. Tire esses dois títulos do cálculo, e o cinema brasileiro praticamente desaparece do mapa de consumo do próprio público brasileiro.

O cinema que o mundo aplaude e a sala que esvazia

Não é falta de dinheiro. Entre 2023 e 2024, o setor recebeu cerca de R$ 4,8 bilhões via Fundo Setorial do Audiovisual e Leis de Incentivo, somados a outros R$ 2,8 bilhões da Lei Paulo Gustavo — o maior volume de recursos públicos da história recente do audiovisual nacional. O número de salas também bateu recorde, superando a marca pré-pandemia. Mais filmes são feitos, mais dinheiro circula, mais prêmios chegam. E, ainda assim, menos gente vai ao cinema ver cinema brasileiro.

A explicação mais simples — "o público não quer ver filme nacional" — não resiste aos fatos. "O Agente Secreto" sozinho respondeu por 67% de todo o público de filmes brasileiros em 2026. "Velhos Bandidos", comédia estrelada por Fernanda Montenegro, Ary Fontoura, Bruna Marquezine e Vladimir Brichta, somou outra fatia relevante logo na estreia. O problema não é a ausência de interesse: é a ausência de filmes que cheguem ao público em condições de competir. Especialistas do setor apontam para uma estrutura ainda capenga entre os três pilares clássicos da indústria — produção, distribuição e exibição —, onde sobra incentivo para filmar e falta músculo para fazer o filme chegar à tela do shopping perto de casa, disputando horário com o último blockbuster americano.

Há também uma explicação menos confortável, que poucos gostam de dizer em voz alta: o circuito de festivais e o circuito comercial não falam exatamente a mesma língua. Júris especializados em Cannes ou na Berlinale valorizam ousadia formal, urgência política, singularidade de olhar — exatamente os atributos que tornam "O Agente Secreto" ou "Ainda Estou Aqui" obras de prestígio internacional. Mas a sala de cinema de bairro, no sábado à noite, é movida por outra lógica: a da experiência coletiva, da comédia fácil, do nome que vende ingresso. Não há nada de errado nisso — é a mesma lógica que faz Hollywood viver de franquias e premiar, em paralelo, filmes de arte que pouca gente assiste. O problema brasileiro é que esse "paralelo" comercial simplesmente não tem força suficiente. Faltam os Chico Bentos, os Auto da Compadecida, os Minha Mãe é uma Peça em quantidade — filmes feitos para o povo, não para o júri.

Memória como estratégia de sobrevivência

Diante desse quadro, é sintomático que boa parte da programação deste Dia do Cinema Nacional aposte na memória como antídoto contra o esquecimento. Em Fortaleza, o Cinema do Dragão dedica uma semana inteira a clássicos restaurados ao lado de lançamentos, numa programação que mistura a Sessão Supermemórias com estreias recentes. O Itaú Cultural Play libera gratuitamente dezenas de curtas-metragens de festivais como o Olhar de Cinema, de Curitiba, e o Curta Ecofalante. O Tela Brasil, plataforma pública de streaming lançada em maio durante o Rio2C, tenta fazer pelo audiovisual nacional o que o cinema de rua já não consegue: garantir que essas obras existam em algum lugar acessível, mesmo sem tela de shopping.

É um movimento bonito e necessário, mas também revelador: quando um setor cultural passa a depender tanto de iniciativas estatais e gratuitas para que seu próprio público o encontre, é sinal de que o mercado, por si só, não está fazendo esse trabalho. O Ministério da Cultura aposta na regulamentação dos serviços de streaming como próximo capítulo dessa disputa — garantir que plataformas internacionais que lucram com conteúdo brasileiro também sustentem, com investimento e direitos trabalhistas, quem o produz.

O que resta para comemorar — e não é pouco

Seria injusto, porém, reduzir o 19 de junho de 2026 a um diagnóstico de crise. A agenda do segundo semestre é generosa: "Corrida dos Bichos", thriller de Fernando Meirelles ambientado num Rio de Janeiro distópico, chega à Amazon Prime em agosto; "100 Dias", de Carlos Saldanha, recria a travessia solitária do navegador Amyr Klink pelo Atlântico Sul; Fernanda Torres reaparece em "Os Corretores", tragicomédia de Andrucha Waddington. Há também a expectativa em torno de "Se Eu Fosse Você 3" e de uma nova safra de cinebiografias e comédias que, se tiverem o fôlego de distribuição que muitas vezes falta, podem reequilibrar o jogo até dezembro.

Mais importante: o Brasil de 2026 é um país que produz, em paralelo, o cinema de festival que o mundo celebra e o cinema popular que enche salas quando tem a chance — às vezes no mesmo filme, como provou "Ainda Estou Aqui". A questão não é escolher entre os dois Brasis cinematográficos. É descobrir como fazer com que se encontrem mais vezes, na mesma sala escura, com a mesma pipoca, na frente do mesmo público que um dia, há mais de cem anos, se maravilhou ao ver o próprio mar em movimento numa tela.

Afonso Segreto filmou a entrada de um navio na baía. Cem e vinte e oito anos depois, o desafio do cinema brasileiro é simétrico e inverso: fazer o público entrar de volta na sala.

 

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