Amanhece no Pantanal
O grito de uma onça-pintada ecoa mais longe do que o ranger de uma colheitadeira. A pergunta que se impõe, agora, não é se o agronegócio “rende” menos do que o turismo ecológico; é se ainda cabe, em um planeta com febre, continuar medindo riqueza apenas pelo volume de commodities que conseguimos empurrar para fora de nosso território. Mato Grosso do Sul – fronteira líquida entre Cerrado, Pantanal e Mata Atlântica – tem a rara chance de trocar a lógica do extrativismo pela gramática da regeneração. Eis a prosa jornalística que ousa imaginar essa travessia.
### 1. A dialética do desassossego
Há dois séculos o homem do campo sul-mato-grossense foi instruído a ouvir, na língua das máquinas, a promessa de progresso: “Quantos alqueires rende?” O resultado é uma paisagem sonora de motores diesel, estradas de chão batido que viram pó e uma economia que, embora fature US$ 7 bilhões com soja e boi, devolve ao Estado o terceiro lugar no ranking de desigualdade de renda do Centro-Oste. A pergunta filosófica que lateja sob o latossolo vermelho é outra: “Quantos silêncios cabem numa tarde de observação de aves?”
Bonito já ensaiou a resposta. Em 2023 tornou-se o primeiro destino de ecoturismo carbono-neutro do planeta. Enquanto a soja segue a curva do preço internacional, o turismo de regeneração segue a curva do tempo humano: 52% mais visitantes e 4,65% menos emissões por turista em apenas três anos. A máquina do lucro, aqui, dança com a cadência da vida.
### 2. Do “ter” ao “ser-pantanal”
O agronegócio vende o que o solo tem. O turismo ecológico vende o que o solo é. A diferença não é retórica; é ontologia. Quando um viajante paga R$380 para flutuar no Rio da Prata, está comprando a experiência de ser temporariamente peixe, de ser reflexo de céu, de ser silêncio. O valor agregado não é litro, quilo ou tonelada; é epifania.
Na escala do Estado, isso significa:
- Mais empregos por hectare: um guia de turismo gera 3,7 postos de trabalho diretos para cada 10ha de área visitada, contra 0,4 no cultivo extensivo de soja.
- Menor dependência de commodities: o preço do carbono pode cair, o preço da marca-pantanal não – porque não é commodity, é patrimônio afetivo.
- Maior multiplicação de renda: cada real gasto no roteiro “Guadakan Trail” reverte-se 2,5 vezes no comércio local (artesanato, culinária, hospedagem familiar).
### 3. A pedagogia da troca gradual
Nenhuma filosofia pede que o produtor rasure 2,3 milhões de ha de soja da noite para o dia. Propõe-se, sim, uma transição parcelada, tal qual o sol se põe:
Fase 1 – Esmeralda (2026-2029)
- Converter 10% das áreas de baixa produtividade (pastagens degradadas) em corredores de observação de fauna.
- Criar o “Selo MS-Regenera”: garantia de origem de serviços turísticos que capturam ao menos 5t CO₂e/ha/ano (reflorestamento com espécies nativas).
Fase 2 – Água (2030-2033)
- Trocar 30 % do incentivo ao crédito rural por “crédito verde-água”: desconto de 1 ponto percentual de juros para produtor que reservar 20 % da fazenda para nascentes e trilhas interpretativas.
- Instituir tributo progressivo sobre uso de agrotóxicos, destinando 100 % da arrecadação a fundo de infraestrutura de ecoturismo municipal.
Fase 3 – Voo (2034-2038)
- Redirecionar 50 % da área plantada de soja para sistemas agroflorestais com produção de azeite de pequi, mel de abelhas nativas e castanha-do-pantanal – todos insumos para cadeia gastronômica turística.
- Estabelecer meta estadual: 60 % do PIB vir de serviços baseados em biodiversidade; 40 %, da agricultura de baixa emissão.
### 4. O benefício invisível: desvelar o tempo
O maior ganho não está nas planilhas. Está na experiência existencial de se viver onde o vento ainda traz cheiro de capim-annoni. Quando a criança pantaneira deixa de ser “filho do peão” para ser “guardião da onça”, o que mudou não é apenas o futuro dela; é o futuro da ideia de futuro. A transição ecológica ensina que esperança não é otimismo barato; é a coragem de trocar a certeza do lucro imediato pela incerteza do bem viver – e descobrir que ela, a incerteza, também rende dividendos, só que em forma de sentido.
### 5. O convite
Mato Grosso do Sul pode continuar sendo um latifúndio que exporta água em forma de grão, ou pode tornar-se uma paisagem-inteira que importa sonhos e exporta saberes. A prosa jornalística aqui finda, mas a pergunta fica:
Se a onça-pintada já nos mostrou que é possível viver sem estragar, por que insistimos em medir grandeza pela capacidade de estragar?
Talvez a próxima colheita – de olhares, de silêncios, de águas cristalinas – já esteja pronta. Basta deixar o solo falar.