Entrevista com Janes Estigarribia: Presidente do Sindicato dos Bancários de Dourados e Região-MS
Janes Estigarribia é o presidente do Sindicato dos Bancários de Dourados e Região-MS onde o sindicato representa trabalhadores de 13 municípios. Os bancários acabaram de sair de uma Campanha Salarial e como o Senhor avalia a campanha salarial deste ano? Foi uma campanha dentro das expectativas da entidade? A campanha foi importante porque conseguimos mobilizar […]

Janes Estigarribia é o presidente do Sindicato dos Bancários de Dourados e Região-MS onde o sindicato representa trabalhadores de 13 municípios. Os bancários acabaram de sair de uma Campanha Salarial e como o Senhor avalia a campanha salarial deste ano? Foi uma campanha dentro das expectativas da entidade?
A campanha foi importante porque conseguimos mobilizar a categoria e colocar na mesa de negociação questões que vão muito além do reajuste salarial. Mas é preciso separar aquilo que conquistamos daquilo que pretendíamos conquistar. Nós iniciamos a campanha defendendo 5% de ganho real, porque entendemos que os trabalhadores precisam ter uma recuperação efetiva do poder de compra, o resultado ficou abaixo da nossa expectativa, mas avaliamos que dentro de um cenário em que a Fenaban, entidade representativa dos bancos, a todo momento falava em congelamento de salários e retirada de direitos históricos, se analisarmos por esse prisma podemos dizer que tivemos avanços, mas que deixa desafios importantes para as negociações especificas por bancos.
A categoria iniciou a negociação buscando 5% de ganho real, mas o acordo chegou a 0,6%. O resultado pode ser considerado satisfatório?
Nós sempre vamos avaliar o resultado a partir daquilo que foi reivindicado pela categoria. 0,6% de ganho real é melhor do que não ter ganho real, mas está muito distante dos 5% que defendíamos.
Então, não seria correto dizer que o Sindicato considera o resultado plenamente satisfatório. Houve uma conquista, mas também houve uma diferença significativa entre o que os trabalhadores reivindicaram e o que foi efetivamente conquistado, é de se lamentar porque os bancos são os que mais lucram e não conseguem dar um reajuste que seja satisfatório para a categoria.
Os bancários ficaram satisfeitos ou houve frustração?
Houve, naturalmente, uma certa frustração. O trabalhador participou das mobilizações sabendo que a pauta era mais ampla e que buscávamos uma valorização maior.
Mas também é importante compreender que negociação coletiva é uma disputa. O papel do Sindicato é negociar, mobilizar e, quando necessário, pressionar. O resultado final representa aquilo que foi possível construir naquele momento, mas não significa que devemos abandonar as reivindicações que não foram atendidas.
Além do índice salarial, quais foram os principais avanços?
A Convenção Coletiva é muito ampla e envolve direitos econômicos e sociais. Portanto, precisamos olhar o conjunto da negociação e não apenas o índice salarial.
Conseguimos preservar direitos importantes, manter a estrutura da Convenção Coletiva Nacional e avançar em pontos que afetam diretamente a vida dos bancários. Para nós, manter direitos diante de um cenário de transformação profunda do sistema financeiro também é uma conquista.
O que ficou de fora e precisa voltar à mesa?
Temos vários temas. Emprego é um deles. Precisamos discutir a redução dos postos de trabalho, o fechamento de agências e a terceirização.
Também precisamos avançar na questão da saúde mental, do combate ao assédio, das metas abusivas e dos impactos da digitalização e da inteligência artificial sobre os trabalhadores.
E, evidentemente, a questão econômica continuará sendo uma pauta central. Se existe crescimento e produtividade no sistema financeiro, queremos que os trabalhadores também participem desse resultado.
Na Caixa, houve greve de 15 dias e dissídio no TST. Como o Sindicato avalia esse processo?
Foi um processo muito mais duro. A greve durante 15 dias demonstra que havia um nível elevado de insatisfação entre os empregados da Caixa e que a negociação não conseguiu produzir uma solução antes da paralisação.
O recurso ao TST foi consequência desse impasse. Para o Sindicato, greve não é objetivo; é instrumento de pressão quando a negociação não consegue avançar. O mais importante agora é analisar o resultado e continuar cobrando da Caixa o cumprimento dos compromissos e a melhoria das condições de trabalho.
A greve demonstrou uma insatisfação maior dos empregados da Caixa?
Sim. Uma greve de 15 dias exige muito do trabalhador. Ninguém participa de uma paralisação dessa duração sem que existam questões importantes por trás dela.
O movimento mostrou que existem preocupações relacionadas às condições de trabalho, à valorização profissional, à sobrecarga e à forma como determinadas políticas vêm sendo implementadas dentro do banco e principalmente o
Saúde Caixa que é o maior desafio em mantê-lo sem onerar os funcionários.
O resultado do dissídio no TST atendeu às principais reivindicações?
O resultado precisa ser analisado com cuidado. Houve decisões importantes, mas nem todas as reivindicações apresentadas pelos trabalhadores foram contempladas da maneira como gostaríamos.
Por isso, o encerramento do dissídio não encerra a luta. Existem questões que continuam precisando de negociação e acompanhamento permanente.
Depois de uma greve de 15 dias, como fica o ânimo dos trabalhadores e a relação com a direção da Caixa?
A greve deixa marcas, principalmente porque envolve trabalhadores que precisam voltar ao ambiente de trabalho e continuar convivendo com a administração.
O nosso papel é justamente buscar a reconstrução do diálogo. A Caixa é um banco público e tem uma responsabilidade diferenciada com seus empregados e também com a sociedade. É preciso transformar o conflito da greve em diálogo e negociação.
Como o Sindicato acompanha as demissões e a redução do número de funcionários nas agências?
Esse é um dos grandes problemas que estamos enfrentando. O sistema financeiro está aumentando a utilização de tecnologia, mas isso não pode significar simplesmente substituir trabalhadores e sobrecarregar aqueles que permanecem.
O Sindicato acompanha as demissões, cobra informações dos bancos e atua sempre que identifica situações que possam representar prejuízo aos trabalhadores. Também defendemos que os bancos ampliem a contratação, principalmente porque a demanda por serviços continua existindo.
Existe risco de Dourados e região perderem ainda mais agências ou funcionários?
Existe uma preocupação concreta. A transformação do modelo de atendimento bancário está acontecendo rapidamente.
O que defendemos é que qualquer mudança leve em consideração a realidade de cada município e da população. Dourados é uma cidade polo e atende também trabalhadores e moradores de diversos municípios da região. Reduzir indiscriminadamente agências e funcionários pode prejudicar tanto os trabalhadores quanto a população.
Até que ponto a redução de funcionários prejudica trabalhadores e clientes?
Prejudica dos dois lados. Para o trabalhador, significa mais pressão, mais tarefas, mais cobrança e menos tempo para realizar cada atividade. Para o cliente, significa filas, demora no atendimento e dificuldade para resolver problemas que não podem ser solucionados pelos canais digitais.
Existe uma contradição: os bancos falam em melhorar a experiência do cliente, mas muitas vezes reduzem justamente o número de pessoas que prestam atendimento.
O Sindicato tem estratégia para preservar empregos e ampliar contratações?
Sim. O emprego é uma pauta permanente. Não podemos discutir somente a cada dois anos, durante a campanha salarial.
Precisamos acompanhar banco por banco, agência por agência, discutir os processos de reestruturação e cobrar alternativas antes das demissões. E também precisamos discutir a redução da jornada e a distribuição dos ganhos de produtividade proporcionados pela tecnologia.
Qual é hoje a dimensão do adoecimento físico e psicológico dos bancários?
É uma preocupação muito grande. O adoecimento deixou de ser uma questão individual e passou a ser um problema coletivo da categoria.
Temos trabalhadores enfrentando ansiedade, depressão, síndrome de burnout, problemas musculoesqueléticos e outros problemas relacionados à organização do trabalho.
O trabalhador não pode ser tratado como uma máquina de produzir resultados. Por trás de cada meta existe uma pessoa, uma família e uma vida.
Metas, cobrança e excesso de trabalho continuam sendo fatores de adoecimento?
Sem dúvida, estão entre os principais problemas apontados pelos trabalhadores. Meta faz parte de qualquer atividade, mas existe uma diferença entre estabelecer objetivos e transformar a meta em instrumento permanente de pressão, exposição e ameaça.
Quando o trabalhador sabe que nunca consegue atingir aquilo que é cobrado, isso gera insegurança, ansiedade e adoecimento.
O que precisa mudar nos bancos?
É necessário mudar a própria organização do trabalho. Precisamos de metas mais realistas, número adequado de funcionários, respeito aos horários, combate efetivo ao assédio e acompanhamento das condições de saúde dos trabalhadores.
Também é necessário que os bancos entendam que saúde do trabalhador e produtividade não são coisas opostas. Um trabalhador saudável, respeitado e valorizado também presta um serviço melhor.
Como o Sindicato atua diante do assédio moral?
O Sindicato atua recebendo denúncias, orientando os trabalhadores e buscando negociação com os bancos. Quando necessário, também utilizamos os instrumentos legais disponíveis.
Mas precisamos avançar principalmente na prevenção. Não podemos esperar o trabalhador adoecer para depois agir.
Depois da campanha salarial, quais são as principais preocupações?
Emprego e saúde estão entre as nossas maiores preocupações. Precisamos acompanhar as mudanças tecnológicas, as demissões, o fechamento de agências e o crescimento das cobranças por metas.
E precisamos continuar discutindo valorização salarial. A campanha termina formalmente, mas a defesa dos interesses da categoria continua todos os dias.
O Sindicato está preparado para discutir inteligência artificial e automação?
Precisamos estar preparados. A inteligência artificial pode trazer benefícios, mas também pode provocar uma transformação profunda no mercado de trabalho. A nossa posição é que tecnologia não pode ser sinônimo de desemprego.
Se a tecnologia aumenta a produtividade, precisamos discutir como esse ganho será distribuído. Queremos participação dos trabalhadores nas decisões, qualificação profissional e mecanismos de proteção ao emprego.
Qual mensagem aos bancários que participaram das mobilizações?
A mensagem é de agradecimento e, principalmente, de reconhecimento. Nenhuma conquista coletiva acontece sem participação. O Sindicato sozinho não faz campanha. Quem constrói a campanha é a categoria. Mesmo quando o resultado fica abaixo da expectativa, a mobilização deixa uma mensagem para os bancos: os trabalhadores estão organizados, acompanham as negociações e estão dispostos a lutar pelos seus direitos.
E para quem ainda não é sindicalizado, qual o seu recado?
A participação é importante porque nenhum trabalhador consegue enfrentar sozinho as transformações que estão acontecendo no sistema financeiro.
Quando o trabalhador se sindicaliza, ele fortalece uma estrutura coletiva de negociação e defesa de direitos. O Sindicato não é apenas para momentos de greve ou campanha salarial. É uma ferramenta permanente de defesa do trabalhador.
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