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A Ficção das Raças (Por Tácito Loureiro)

Publicada em: 03/07/2026 08:37 -

 

Por séculos, acreditou-se que a humanidade estava dividida em raças. A genética demonstrou que essa ideia não resiste às evidências. Ainda assim, o conceito continua estruturando leis, políticas públicas e parte do debate político brasileiro. O que explica esse paradoxo?

Poucas palavras carregam uma história tão pesada quanto "raça". Ela serviu para justificar a escravidão, legitimar impérios coloniais, alimentar teorias eugênicas, fundamentar o apartheid sul-africano e sustentar o nazismo. Durante quase trezentos anos, a palavra foi apresentada como uma categoria científica. Acreditava-se que a humanidade estivesse naturalmente dividida em grupos biológicos distintos, cada qual portador de capacidades intelectuais, características morais e aptidões próprias.

Hoje sabemos que essa narrativa era falsa. Não falsa apenas do ponto de vista ético, mas falsa cientificamente.

A partir da segunda metade do século XX — e de forma definitiva com o avanço da genética molecular nas últimas décadas — tornou-se evidente que as chamadas "raças humanas" não possuem existência biológica objetiva. Não existem fronteiras genéticas que permitam dividir os quase oito bilhões de seres humanos em compartimentos naturais chamados "brancos", "negros", "amarelos" ou qualquer outra classificação racial tradicional.

A ciência demoliu o conceito. Mas a política o preservou. E talvez nenhum país expresse tão claramente essa contradição quanto o Brasil.

Quando a Biologia mudou de ideia

Durante o século XIX, classificar seres humanos em raças parecia tão natural quanto classificar mamíferos ou plantas. Antropólogos mediam crânios, comparavam formatos de nariz, tonalidades de pele, tipos de cabelo e dezenas de outras características físicas.

A convicção era simples. Diferenças externas refletiriam diferenças internas. Hoje essa hipótese é considerada um dos maiores equívocos da história da ciência.

O sequenciamento do genoma humano revelou que mais de 99,9% do DNA é compartilhado por toda a espécie. A pequena fração variável distribui-se de forma contínua entre populações, sem produzir fronteiras biológicas claras.

Não existem "genes da raça negra". Não existem "genes da raça branca". Não existe um marcador genético capaz de separar toda a humanidade em blocos raciais estanques. A diversidade humana existe, evidentemente. Mas ela é gradual, geográfica e histórica.

Populações vizinhas tendem a compartilhar mais características entre si do que populações muito distantes. A cor da pele, por exemplo, representa principalmente uma adaptação evolutiva à intensidade da radiação ultravioleta em diferentes regiões do planeta. Não é um certificado biológico de pertencimento racial. O mesmo vale para textura dos cabelos, formato dos olhos ou outras características visíveis. São adaptações locais. Não raças.

O geneticista Richard Lewontin demonstrou, ainda em 1972, que a maior parte da variabilidade genética humana encontra-se dentro de cada população, e não entre populações. Estudos posteriores, utilizando centenas de milhares de marcadores genéticos, refinaram esse quadro, mas confirmaram a conclusão central: a espécie humana não se organiza em raças biológicas discretas. A natureza produz continuidade. Foi a cultura que produziu fronteiras.

O nascimento da etnia

Enquanto a Biologia abandonava o conceito de raça, a Antropologia construía outro vocabulário. Surge então o conceito de etnia. A mudança parece apenas semântica. Não é. Raça pretende explicar diferenças humanas pela natureza. Etnia procura compreendê-las pela cultura.

Uma etnia compartilha histórias, memórias, idiomas, tradições, símbolos, práticas religiosas e sentidos de pertencimento. Não depende da genética. Pessoas geneticamente muito próximas podem integrar etnias completamente distintas. Da mesma forma, indivíduos com ancestralidades muito diferentes podem compartilhar uma única identidade étnica.

A identidade judaica, por exemplo, possui dimensões religiosas, culturais e históricas impossíveis de serem reduzidas à biologia. O mesmo ocorre com povos indígenas, comunidades quilombolas, ciganos, curdos ou bascos. A cultura substitui o sangue. A história substitui a anatomia. Essa mudança representa uma das maiores revoluções intelectuais do século XX.

O paradoxo brasileiro

Seria natural imaginar que essa transformação científica tivesse sido incorporada imediatamente pelas instituições públicas. Não foi. A Constituição brasileira condena o racismo. A legislação penal pune crimes de discriminação racial. As políticas de ação afirmativa utilizam categorias raciais. Os censos demográficos classificam brasileiros segundo cor ou raça. Concursos públicos, universidades e diversos programas governamentais adotam categorias como branco, preto, pardo, indígena e amarelo. O próprio Estado afirma diariamente que os cidadãos pertencem a determinadas "raças".

Como explicar essa aparente contradição? A resposta exige distinguir ciência e política. A Biologia pergunta como a espécie humana é constituída. O Direito pergunta como as pessoas são tratadas pela sociedade. São perguntas diferentes.

A raça morreu na Biologia. Sobreviveu na Sociologia.

É precisamente aqui que reside a maior sutileza do debate contemporâneo. Quando cientistas afirmam que não existem raças humanas, não estão dizendo que o racismo deixou de existir. Ao contrário. O racismo continua produzindo consequências concretas justamente porque indivíduos continuam sendo classificados socialmente como pertencentes a determinadas raças. A discriminação não depende de fundamentos científicos. Ela depende de percepções sociais. Uma pessoa pode sofrer racismo por causa da cor de sua pele independentemente de a biologia reconhecer ou não a existência de raças.

Nesse sentido, muitos sociólogos passaram a afirmar que raça deixou de ser uma categoria biológica para tornar-se uma categoria social. É uma realidade construída. Mas não por isso menos real em seus efeitos. Dinheiro também é uma construção social. Nações são construções sociais. Fronteiras são construções sociais. Ainda assim, moldam profundamente a vida das pessoas. Com a raça ocorre algo semelhante.

A política diante do espelho

É justamente aqui que emerge uma questão filosófica desconfortável. Pode-se combater o racismo utilizando as mesmas categorias criadas pelo próprio racismo? As políticas de ação afirmativa respondem afirmativamente.

Se determinados grupos sofreram discriminação histórica, argumentam seus defensores, é necessário identificá-los para corrigir desigualdades persistentes.

Os críticos levantam outra preocupação. Toda vez que o Estado exige que o cidadão escolha oficialmente uma identidade racial, reforça-se a ideia de que essas categorias possuem relevância permanente. A classificação necessária para reparar injustiças pode acabar perpetuando a própria lógica classificatória.

É um dilema sem solução simples. Ignorar a raça pode invisibilizar desigualdades. Enfatizá-la excessivamente pode consolidar divisões que a própria ciência demonstrou não existirem biologicamente.

A miscigenação brasileira desafia qualquer classificação

O caso brasileiro torna o problema ainda mais complexo. Poucas sociedades passaram por um processo de miscigenação tão intenso. Europeus, africanos, indígenas, árabes e asiáticos cruzaram-se durante séculos. O resultado é uma população cuja ancestralidade frequentemente não corresponde à aparência física.

Diversos estudos genéticos mostram que brasileiros classificados como "brancos" podem possuir elevada ancestralidade africana ou indígena. Da mesma forma, pessoas identificadas como "pretas" ou "pardas" frequentemente apresentam significativa ancestralidade europeia.

O fenótipo conta apenas parte da história. Os genes contam outra. Nenhum dos dois coincide perfeitamente com identidade, cultura ou experiência social.

Essa complexidade transforma qualquer tentativa de classificação rígida num exercício inevitavelmente imperfeito.

O futuro depois das raças

Talvez estejamos vivendo uma transição histórica. No século XIX, acreditava-se que raça explicava tudo. No século XX, descobriu-se que explicava muito pouco. No século XXI, compreendemos que a palavra sobrevive muito mais como herança política do que como conceito científico.

A verdadeira pergunta talvez não seja se devemos abandonar completamente o termo. A pergunta é outra. Como construir políticas públicas capazes de enfrentar desigualdades históricas sem transformar categorias sociais transitórias em essências permanentes?

Não existe consenso. Mas existe um fato que dificilmente será revertido. A Biologia já pronunciou seu veredicto. A humanidade não está dividida em raças. Está dividida por histórias, culturas, desigualdades, fronteiras e memórias — todas construções humanas, nenhuma delas inscrita de forma definitiva no DNA.

A ironia é profunda. A ciência finalmente demonstrou que pertencemos a uma única família biológica justamente quando a política passou a organizar parte de suas instituições em torno de identidades raciais. Talvez seja essa a maior lição do debate. O racismo continua existindo. As raças, não.

Confundir essas duas afirmações é transformar um erro científico em um problema político — ou um problema político em um erro científico. A maturidade de uma democracia consiste precisamente em saber distingui-los.

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