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Entre bombachas e palanques: o uso político da ideia de “tradição” no Mato Grosso do Sul

Publicada em: 24/05/2026 08:26 -

 

Reinaldo de Mattos Corrêa*

Em Mato Grosso do Sul, a palavra “tradição” ganhou força muito além das festas regionais, rodas de tereré ou cavalgadas de fim de semana. Nas últimas décadas, o termo passou a ocupar discursos eleitorais, campanhas institucionais e debates públicos como ferramenta de construção política. Em cidades do interior e também na capital, símbolos culturais ligados ao agronegócio, ao imaginário pantaneiro e à figura do homem do campo tornaram-se elementos de identidade coletiva utilizados para legitimar projetos de poder. A tradição deixou de representar apenas herança cultural; transformou-se em narrativa estratégica capaz de definir pertencimento social e influência política.

O fenômeno aparece de forma visível em eventos patrocinados por grupos econômicos e agentes públicos. Feiras agropecuárias, festivais sertanejos e celebrações regionais frequentemente apresentam uma estética marcada por chapéus, botas, hinos rurais e referências ao “verdadeiro povo sul-mato-grossense”. Essa encenação simbólica produz um efeito poderoso: cria a impressão de unidade cultural em um estado marcado por profundas diferenças sociais, étnicas e históricas. Em meio a esse processo, identidades urbanas, periféricas e indígenas acabam muitas vezes empurradas para posições secundárias dentro da narrativa oficial da tradição regional.

A questão torna-se ainda mais delicada quando discursos políticos utilizam a ideia de tradição para bloquear transformações sociais. Expressões como “valores tradicionais” ou “defesa da cultura regional” aparecem frequentemente associadas à resistência contra mudanças educacionais, debates ambientais ou reconhecimento de direitos indígenas. A tradição passa então a funcionar não apenas como memória coletiva, mas como instrumento de controle simbólico sobre aquilo que pode ou não ser considerado legítimo dentro do espaço público. O passado deixa de atuar como patrimônio cultural e passa a operar como fronteira ideológica.

Existe, porém, uma dimensão ainda mais profunda nesse fenômeno: a tradição política raramente tenta preservar o passado como ele realmente ocorreu; procura construir uma versão emocionalmente confortável da história. Em muitos discursos públicos, o campo aparece sem conflitos agrários, o progresso surge sem desigualdades e a identidade regional é apresentada como unanimidade natural, quase sagrada. O problema não está em valorizar raízes culturais, mas em transformar símbolos afetivos em instrumentos de silenciamento social. Surge então uma pergunta inquietante e pouco discutida: até que ponto uma sociedade continua defendendo a própria cultura — e em que momento passa a utilizar a palavra “tradição” para evitar o desconforto de encarar contradições históricas? Talvez determinadas narrativas tradicionais sobrevivam não porque expliquem o passado com honestidade, mas porque oferecem sensação de estabilidade emocional em tempos marcados por medo, mudanças rápidas e insegurança coletiva.

Em Mato Grosso do Sul, essa disputa ganha contornos particulares por causa da formação histórica do estado. A região foi construída por múltiplas matrizes culturais: povos indígenas, migrantes sulistas, trabalhadores paraguaios, comunidades quilombolas e populações urbanas vindas de diferentes partes do País. Ainda assim, parte da representação política dominante insiste em reduzir essa diversidade a uma única imagem regional ligada ao campo e à pecuária. A simplificação interessa porque símbolos homogêneos facilitam campanhas eleitorais, fortalecem alianças econômicas e produzem sensação de continuidade histórica em tempos de instabilidade social.

Nos territórios indígenas, o conflito em torno da tradição revela outra dimensão do problema. Lideranças desses povos frequentemente denunciam que práticas culturais ancestrais recebem menos reconhecimento institucional do que manifestações ligadas ao agronegócio e ao universo sertanejo propagado nas rádios. Enquanto grandes eventos rurais recebem investimentos robustos e ampla visibilidade política, aldeias convivem com precariedade estrutural e disputas territoriais históricas. A pergunta que emerge desse contraste possui força suficiente para romper paradigmas: quem decide quais tradições merecem proteção pública e quais podem permanecer invisíveis dentro da memória oficial de um estado?

Especialistas em sociologia e ciência política observam que o uso estratégico da tradição não constitui exclusividade sul-mato-grossense. Em diferentes partes do mundo, símbolos culturais são frequentemente mobilizados para fortalecer identidades políticas, estimular sentimentos de pertencimento e consolidar lideranças. A diferença, no caso regional, reside na velocidade com que mudanças econômicas e urbanas convivem com discursos que tentam preservar uma imagem quase ruralizada do estado. Em cidades verticalizadas, cercadas por condomínios e avenidas congestionadas, campanhas políticas continuam explorando a figura do peão pantaneiro como representação dominante da identidade coletiva.

O impacto dessa construção simbólica também alcança a juventude. Muitos jovens urbanos crescem diante de uma sensação contraditória: vivem em ambientes digitais, estudam em universidades conectadas a debates globais e convivem com realidades multiculturais, porém recebem discursos públicos que apresentam tradição como algo fixo, imutável e homogêneo. O resultado aparece em conflitos geracionais silenciosos, nos quais parte da população passa a enxergar diversidade cultural como ameaça em vez de riqueza social. A tradição, quando transformada em ferramenta política rígida, deixa de unir memórias e passa a selecionar quais vozes podem ocupar o centro da narrativa pública.

Ainda assim, tradição não representa necessariamente manipulação ou retrocesso. Manifestações culturais populares preservam histórias, afetos e formas legítimas de pertencimento coletivo. O problema surge quando símbolos culturais deixam de servir à memória comunitária e passam a funcionar como instrumentos de exclusão política ou blindagem ideológica. Em Mato Grosso do Sul, o debate sobre tradição talvez revele menos uma disputa sobre o passado e mais uma batalha silenciosa pelo futuro: qual identidade regional será construída nas próximas décadas, e quem ficará do lado de fora dessa construção coletiva.

* Reinaldo de Mattos Corrêa é Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.

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