Reinaldo de Mattos Corrêa*
Às seis da tarde, parte das calçadas de Dourados muda de ritmo. Portas metálicas descem com violência, motocicletas aceleram antes do sinal vermelho e olhares percorrem esquinas como radares improvisados. Em bairros afastados do centro, mães aguardam filhos diante de portões fechados, enquanto grupos de mensagens espalham relatos de assaltos, perseguições e desaparecimentos. A cidade cresce, mas junto do concreto cresce também uma sensação coletiva: a impressão de que o perigo ocupa cada fresta da rotina urbana.
Dados da segurança pública revelam oscilações nos índices criminais nos últimos anos, porém a percepção popular parece caminhar em velocidade própria.
Em muitos casos, estatísticas recuam enquanto o temor avança. A explicação envolve um fenômeno menos visível que o crime registrado em boletins: a circulação contínua da ansiedade social por meio de vídeos, rumores digitais e narrativas repetidas diariamente. Em Dourados, o medo deixou de representar apenas reação ao delito; passou a funcionar como produto político, econômico e simbólico.
Empresas de monitoramento privado ampliaram contratos, condomínios instalaram cercas eletrônicas em sequência e lojas especializadas em vigilância multiplicaram anúncios com imagens de invasões e rostos encapuzados. A indústria da proteção cresce alimentada por uma lógica simples: quanto maior a sensação de ameaça, maior o consumo de blindagem cotidiana. Ao mesmo tempo, setores políticos transformam insegurança em combustível eleitoral, prometendo choque repressivo, endurecimento penal e expansão ostensiva do aparato policial. A pergunta que paira sobre Dourados não diz respeito apenas ao crime, mas ao valor financeiro e eleitoral produzido pelo pânico coletivo.
Nos corredores escolares, estudantes comentam execuções ligadas ao tráfico como quem descreve capítulos de uma série interminável. Em bairros periféricos, moradores relatam abandono estatal histórico, iluminação precária, ausência de áreas culturais e transporte irregular. A violência, nesse contexto, nasce menos de uma suposta “natureza criminosa” e mais de um território marcado por desigualdade, circulação de armas e economias clandestinas conectadas à fronteira. Quando o debate público ignora tais raízes, sobra espaço para discursos simplificados que transformam medo em espetáculo permanente.
Existe ainda outro elemento pouco discutido: a arquitetura emocional da cidade. Grades altas, câmeras voltadas para ruas vazias, guaritas blindadas e alarmes estridentes moldam comportamentos diários. Cada dispositivo comunica uma mensagem silenciosa: “há ameaça por toda parte”. O resultado aparece na erosão lenta da confiança coletiva, na redução da convivência comunitária e na substituição da vida pública por rotinas isoladas entre muros.
Parte da imprensa local também ocupa posição decisiva na fabricação cotidiana do medo. Programas policiais de rádio transformam tragédias humanas em entretenimento repetitivo, com trilhas dramáticas, vocabulário bélico e exploração emocional da dor alheia. Na televisão, imagens de sangue, perseguições e prisões recebem tratamento espetacularizado, enquanto jornais impressos destacam manchetes alarmistas capazes de ampliar sensação permanente de colapso urbano. Em vez de informar com equilíbrio e contexto, determinados veículos alimentam uma pedagogia do pânico que fortalece audiência, impulsiona publicidade e aprofunda a percepção de que Dourados vive cercada por ameaça ininterrupta.
Em Dourados, parte da população já não pergunta apenas “quem comete crimes?”, mas algo mais profundo e perturbador: quem necessita da população assustada para manter poder, lucro e influência? Tal questão rompe a superfície do noticiário policial e alcança estruturas econômicas, eleitorais e midiáticas que convertem insegurança em capital político e financeiro. Enquanto essa engrenagem permanecer oculta, o medo continuará circulando pela cidade com força maior que qualquer sirene.
* Reinaldo de Mattos Corrêa é Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.