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Quando o Silêncio se Torna Omissão: o Papel das Lideranças Religiosas na Defesa do Saber em Dourados

Publicada em: 16/04/2026 06:36 -

 

Reinaldo de Mattos Corrêa*

Em Dourados, a ausência de uma grande biblioteca municipal — central, com acervo amplo, estrutura digital e acesso livre — não pode mais ser tratada como detalhe administrativo ou promessa adiada. Trata-se de uma falta que atravessa a vida coletiva e revela algo mais profundo: a fragilidade dos espaços onde o conhecimento circula de forma aberta, sem mediações excludentes. E, diante dessa lacuna, emerge uma questão incômoda: onde estão as vozes que, historicamente, se colocam como guias morais e comunitários?

As lideranças religiosas ocupam, há décadas, uma posição singular na cidade. Igrejas, templos e comunidades de fé não são apenas espaços de culto, mas também centros de sociabilidade, escuta e orientação. Nesse sentido, exercem uma forma de poder que não se impõe pela força, mas que se infiltra nos cotidianos, moldando percepções, valores e práticas. Trata-se de uma influência capilar, disseminada, que atravessa corpos e consciências.

Diante disso, o silêncio em relação à ausência de uma biblioteca pública de grande porte não é neutro. Ele participa de uma lógica em que determinadas demandas coletivas permanecem à margem do debate público. Quando lideranças religiosas escolhem não tensionar o poder público sobre temas estruturais como o acesso ao conhecimento, acabam, ainda que indiretamente, contribuindo para a manutenção de um cenário de desigualdade informacional.

Uma biblioteca municipal não é apenas um equipamento cultural. É um espaço onde o saber deixa de ser privilégio e passa a ser prática compartilhada. É onde jovens podem estudar sem barreiras, onde trabalhadores podem acessar informações, onde diferentes visões de mundo podem coexistir. É, em muitos aspectos, um território de emancipação intelectual — e, por isso mesmo, um elemento que redefine relações de poder na cidade.

Historicamente, instituições religiosas também foram guardiãs do saber, responsáveis pela preservação e difusão de textos, ideias e formas de pensamento. Hoje, esse papel pode ser reconfigurado: não mais como controle do conhecimento, mas como defesa ativa da ampliação de acesso. Cobrar do poder público a criação de uma biblioteca central, com livros, computadores e internet gratuita, não seria um gesto político-partidário, mas uma ação alinhada a princípios amplamente defendidos nos discursos religiosos: justiça, dignidade, cuidado com o outro.

Ao não assumir essa pauta, perde-se a oportunidade de transformar a influência simbólica em ação concreta. Em uma cidade marcada por desigualdades de acesso à educação e à tecnologia, a mobilização dessas lideranças poderia deslocar o tema da biblioteca do campo da negligência para o centro das prioridades públicas.

Não se trata de atribuir culpa isolada, mas de reconhecer responsabilidades compartilhadas. O poder público tem o dever de agir, mas a sociedade — especialmente aqueles que ocupam posições de influência — tem o papel de provocar, questionar e exigir. O silêncio, nesse contexto, funciona como uma forma de acomodação que favorece a continuidade da ausência.

Dourados precisa de uma biblioteca municipal grande, central, viva. E precisa, também, de vozes que se levantem para exigir esse direito. Entre sermões, encontros e celebrações, há espaço para inserir uma pauta que não diz respeito apenas à leitura, mas à própria capacidade de uma população acessar, produzir e transformar conhecimento.

Porque, no fim, a questão não é apenas sobre livros ou computadores. É sobre quais formas de saber são incentivadas, quais permanecem distantes e quem decide — por ação ou por silêncio — os limites desse acesso.

*Produtor Rural em Mato Grosso do Sul.

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