A escalada contra o Irã e a aniquilação de Gaza são apenas o começo. Esta é a nova ordem global: uma era de barbárie tecnológica, onde não há regras para os poderosos, apenas para os fracos. Quem resiste às imposições dos fortes enfrenta uma enxurrada de bombas e mísseis.
Hospitais, escolas, universidades e residências são reduzidos a escombros. Profissionais de saúde, estudantes, jornalistas, escritores, cientistas, artistas e lideranças políticas — incluindo negociadores — são mortos aos milhares por mísseis e drones.
Recursos são saqueados às claras. Alimentos, água e medicamentos são transformados em armas de guerra.
Organismos como a ONU tornaram-se peças de fachada, relíquias inúteis. A proteção aos direitos individuais, as fronteiras abertas e o direito internacional deixaram de existir. Líderes que remetem aos piores algozes da história — aqueles que destruíram cidades, conduziram populações ao extermínio e cobriram territórios com valas comuns — estão de volta, sedentos por vingança.
Eles repetem os mesmos discursos hipermasculinizados, a retórica vil e racista, a visão simplista de bem contra mal. Usam a mesma linguagem oca de dominação total e violência sem limites.
São palhaços assassinos, bufões, idiotas que tomaram o poder para impor suas visões absurdas enquanto desviam recursos públicos para enriquecer a si mesmos.
Como escreve Pankaj Mishra, após meses testemunhando massacres brutais, executados e justificados por pessoas que se assemelham às elites globais, milhões sentem-se estranhos no mundo. O abismo moral que se abre diante de nós é imensurável.
Os dominados são tratados como propriedade, mercadorias a serem exploradas. Os arquivos de Epstein expõem a doença e a crueldade da classe dominante — liberais e conservadores, reitores, acadêmicos, filantropos, magnatas, celebridades, democratas e republicanos.
Entregam-se ao hedonismo desenfreado. Frequentam escolas e serviços de saúde privados, vivem em bolhas isoladas, cercados por assessores, empregados e guarda-costas. Moram em mansões fortificadas, viajam em jatos particulares e iates, e passam férias em ilhas privadas. Habitam um mundo à parte, o que um jornalista chamou de "Richistão", onde fazem acordos perversos, acumulam bilhões e descartam pessoas — inclusive crianças — como lixo. Nesse círculo, ninguém é responsabilizado. Nenhum pecado é grave demais. São parasitas que dilaceram o Estado e aterrorizam os que consideram "raças inferiores".
Como descreveu George Orwell, não haverá espaço para curiosidade ou prazer genuíno. Restará apenas a embriaguez do poder. A imagem do futuro é uma bota pisoteando um rosto humano, para sempre.
A justiça tornou-se ferramenta de repressão. Os tribunais promovem julgamentos de fachada. Os departamentos de justiça funcionam como máquinas de vingança.
Agentes armados e mascarados tomam as ruas e matam civis. Bilhões são gastos para converter galpões em centros de detenção — campos de concentração modernos. As elites alegam que serão apenas para imigrantes ou criminosos, mas mentem como hábito. Para elas, a população é composta por pessoas passivas ou delinquentes; não há meio-termo.
Esses campos, onde não há garantias legais e pessoas desaparecem, são voltados para nós — os cidadãos desta república em decomposição. E nós assistimos, inertes, aguardando nossa própria subjugação.
A barbárie no Irã, no Líbano e em Gaza é a mesma que enfrentamos em casa. Os mesmos que promovem o genocídio e a guerra sem justificativa estão desmontando nossas instituições democráticas.
O antropólogo Arjun Appadurai chama esse processo de "correção malthusiana global" — uma forma de preparar o mundo para os vencedores da globalização, eliminando o "ruído incômodo" dos perdedores.
Há quem critique esse pessimismo, pedindo esperança. Mas quem se contenta com isso torna-se parte do problema. A realidade acabará por destruir essas fantasias otimistas, e quando isso ocorrer, pode ser tarde demais.
O verdadeiro desespero não vem de enxergar a realidade com clareza, mas da rendição ao poder maligno — seja pela fantasia ou pela apatia. A resistência, mesmo que aparentemente fadada ao fracasso, é o que nos devolve poder, dignidade e autonomia. É ela que dá sentido à palavra esperança.
Iranianos, libaneses e palestinos sabem que não há como apaziguar esses monstros. As elites globais não acreditam em nada, não sentem nada, não merecem confiança. Têm os traços clássicos da psicopatia: encanto superficial, egocentrismo, necessidade de estímulo constante, propensão à mentira e à manipulação, ausência de remorso ou culpa. Desprezam virtudes como empatia, honestidade e compaixão. Vivem sob o lema do "eu, eu, eu".
Como escreveu Eric Fromm, o fato de milhões compartilharem os mesmos vícios não os transforma em virtudes, nem os erros em verdades, nem a patologia coletiva em sanidade.
Há quase três anos testemunhamos o mal em Gaza. Agora, ele se espalha pelo Líbano e Irã. Vemos políticos e a mídia encobrirem ou justificarem esse mal.
O New York Times, numa atitude digna de Orwell, orientou internamente seus jornalistas a evitarem termos como "campos de refugiados", "território ocupado", "limpeza étnica" e, claro, "genocídio". Quem ousa nomear e denunciar esse mal é difamado, colocado em listas negras, expulso de universidades, preso ou deportado. Instala-se o silêncio autoritário. Quem não aplaudir a guerra contra o Irã corre o risco de ser silenciado, como já foi sugerido por autoridades governamentais.
Os inimigos não estão na Palestina, no Líbano ou no Irã. Estão aqui, entre nós. São traidores dos ideais democráticos, que imaginam um mundo dividido entre senhores e escravos. Gaza é apenas o ponto de partida. Não há mecanismos internos de reforma. Restam duas opções: resistir ou se render.