Uma pesquisa inédita da consultoria Germinal, especializada em economia e trabalho, apresenta um cenário oposto ao divulgado por entidades empresariais sobre os efeitos do fim da jornada 6x1. Enquanto Fecomércio e Fiesc alertaram para aumento de custos, risco de demissões e impacto negativo na economia catarinense, o novo levantamento indica ganhos significativos: criação de vagas, elevação da produtividade, redução das desigualdades e crescimento do Produto Interno Bruto (PIB).
Embora os dados tenham sido coletados em Santa Catarina, os pesquisadores afirmam que os resultados podem ser aplicados ao cenário nacional com poucas variações. “A tendência é que os mesmos efeitos se repitam em todo o país”, afirma Maurício Mulinari, economista e um dos autores do estudo.
A análise utilizou microdados da PNAD Contínua (IBGE), estudos internacionais sobre produtividade e informações do Ipea, entre outras fontes. A conclusão aponta que o impacto na rentabilidade dos empregadores seria pequeno — cerca de 1% de aumento médio nos custos — e desigual entre setores. Os empresários mais afetados seriam aqueles com menor capacidade de reorganizar o trabalho e maior dependência da exploração da força de trabalho.
A pesquisa prevê que a mudança atingiria 1,25 milhão de trabalhadores catarinenses, o equivalente a metade dos empregos formais no estado. Os mais beneficiados seriam pessoas de famílias com renda de até dois salários mínimos por pessoa, o que representa três quartos do grupo. Negros, mulheres e trabalhadores com baixa escolaridade estariam entre os que mais sentiriam os efeitos positivos, contribuindo para a redução das desigualdades sociais.
De acordo com as projeções, seriam criados cerca de 24 mil postos na indústria, 20 mil no comércio e 17 mil nos serviços. Setores como bares, restaurantes, saúde e transporte também teriam ganhos, seja pela redução direta da jornada, seja pelo pagamento de horas extras. Já na indústria têxtil e metalúrgica, os impactos seriam mais intensos.
A pesquisa também destaca que a reorganização do trabalho — com novas contratações e uso de horas extras — evitaria cortes de empregos. Além disso, a menor fadiga dos trabalhadores tende a aumentar a produtividade. O estudo utiliza a Matriz de Contabilidade Social para mostrar que o aumento da massa salarial geraria um ciclo de maior consumo, aquecendo a indústria e os serviços, ampliando a arrecadação e impulsionando o PIB.
“Do ponto de vista geral da economia, a medida é amplamente positiva”, afirma Mulinari. “Ela obriga as empresas a reduzirem a dependência da exploração da força de trabalho e investirem mais em inovação e tecnologia.”
Segundo os pesquisadores, os custos adicionais estimados — em torno de 1% — são considerados moderados e comparáveis aos efeitos da política de valorização do salário mínimo. Eles ressaltam que as projeções catastróficas divulgadas por setores empresariais não encontram respaldo nos dados empíricos e estariam mais voltadas à preservação da rentabilidade do capital.
“A história mostra que a classe dominante nunca foi convencida por argumentos. A pauta dos trabalhadores só avançou com mobilização e pressão política”, afirma Mulinari. “A disputa pelo convencimento se dá na sociedade, e as pesquisas indicam que a ampla maioria da população brasileira é favorável ao fim da escala 6x1.”
O fim da jornada 6x1 é uma das prioridades do governo federal para 2026 e tem enfrentado resistência de setores do mercado e da direita política. O estudo da Germinal, ao apresentar um quadro oposto ao terrorismo econômico divulgado por entidades patronais, aponta para uma possível ruptura com o modelo baseado na exploração da força de trabalho, em direção a uma economia mais dinâmica e justa.