Tácito Loureiro
O Brasil não é um país pobre, nem carente de recursos. Pelo contrário: poucos países no mundo reúnem tantas condições objetivas para a prosperidade. Quando a pergunta é “o que impede o Brasil de ser rico, abundante e desenvolvido?”, a resposta não está em um único fator, mas em um conjunto de bloqueios profundos — culturais, institucionais e mentais — que se reforçam mutuamente ao longo do tempo.
1. Falta de clareza de um projeto nacional de longo prazo
Países prósperos sabem onde querem chegar em 20, 30, 50 anos. O Brasil não tem um projeto nacional contínuo. Cada governo começa do zero, desfaz o anterior e governa para o curto prazo. Sem direção clara, há movimento, mas não progresso sustentável.
Sem metas nacionais claras (educação, produtividade, infraestrutura, inovação), o País desperdiça energia e recursos.
2. Mentalidade de curto prazo e imediatismo
O Brasil sofre de um imediatismo crônico — tanto na política quanto na sociedade. Busca-se o ganho rápido, o benefício imediato, o “jeitinho” que resolve hoje e cria problemas amanhã.
Prosperidade exige disciplina, sacrifício inicial e visão de longo prazo. O país, como coletivo, ainda tem dificuldade em adiar recompensas.
3. Educação fraca naquilo que realmente gera riqueza
O problema da educação brasileira não é apenas acesso, mas qualidade e propósito. Forma-se pouco para:
- pensamento crítico
- matemática e lógica
- ciência e tecnologia
- empreendedorismo
- responsabilidade individual
Sem educação prática e exigente, o país produz baixa produtividade — e sem produtividade, não há riqueza.
4. Baixa produtividade do trabalho
O brasileiro trabalha muito, mas produz pouco em termos econômicos comparativos. Isso não é culpa do trabalhador, mas do sistema:
- burocracia excessiva
- infraestrutura precária
- insegurança jurídica
- má gestão
- pouca inovação
Riqueza não vem de esforço bruto, mas de eficiência, tecnologia e organização.
5. Cultura de dependência do Estado
O Brasil construiu uma relação distorcida entre cidadão e Estado. Em vez de o Estado ser um facilitador do desenvolvimento, tornou-se:
- excessivamente grande
- caro
- ineficiente
- paternalista
Isso desestimula autonomia, empreendedorismo e responsabilidade individual, ao mesmo tempo em que consome recursos que poderiam gerar crescimento.
6. Corrupção estrutural (não apenas política)
A corrupção no Brasil não é apenas institucional; é cultural. Ela aparece no pequeno e no grande:
- sonegação “justificada”
- privilégios normalizados
- leis feitas para poucos
- tolerância social ao errado
Países ricos não são perfeitos, mas têm intolerância social à corrupção. No Brasil, muitas vezes ela é relativizada.
7. Insegurança jurídica e regras instáveis
Investimento exige previsibilidade. No Brasil:
- leis mudam constantemente
- contratos são questionados
- decisões judiciais são imprevisíveis
Isso afasta capital, inibe inovação e trava o crescimento de longo prazo.
8. Elites extrativistas e desconectadas do país real
Parte significativa das elites — políticas, econômicas e burocráticas — historicamente extrai valor do Estado em vez de criar valor para a sociedade. Isso gera concentração de poder, desigualdade e bloqueio à mobilidade social.
Sem elites comprometidas com o desenvolvimento nacional, o País fica preso ao passado. O agronegócio e o extrativismo, por exemplo, causam concentração de renda, destruição ambiental, pobreza.
9. Desvalorização do mérito e da excelência
O Brasil tem dificuldade em premiar mérito de forma consistente. Muitas vezes:
- esforço não é recompensado
- mediocridade é tolerada
- excelência é vista com desconfiança
Países desenvolvidos criam ambientes onde ser bom vale a pena.
10. Falta de responsabilidade individual coletiva
Talvez o ponto mais sensível: o Brasil ainda tende a terceirizar a culpa. A culpa é sempre do governo, do sistema, da história, do outro.
Países prosperam quando seus cidadãos perguntam:
“O que eu posso fazer melhor?”
e não apenas:
“Quem errou?”
Em síntese
O que impede o Brasil de ser um país próspero não é falta de recursos, mas:
- falta de clareza
- falta de disciplina coletiva
- instituições fracas
- cultura de curto prazo
- baixa exigência consigo mesmo
A boa notícia é que nada disso é imutável. Países mudam quando a mentalidade muda. O Brasil não precisa de um milagre econômico. Precisa de maturidade como nação.
Prosperidade não é um destino geográfico — é uma decisão coletiva sustentada ao longo do tempo.