## Introdução: O Paradoxo de uma Terra Abençoada
O Brasil carrega uma contradição perturbadora que desafia a lógica mais elementar da economia e da justiça social. Ocupa aproximadamente 5,7% das terras aráveis do planeta, possui a maior reserva de água doce doce do mundo, concentra entre 15% e 20% de toda a biodiversidade global e ostenta um subsolo rico em minérios estratégicos como ferro, manganês, nióbio, ouro e petróleo. No papel, trata-se de uma nação abençoada por uma geografia que deveria garantir prosperidade generalizada. Na prática, o Brasil permanece como um dos países mais desiguais socioeconomicamente do mundo, com mais de 60 milhões de pessoas vivendo abaixo da linha da pobreza e uma economia cronicamente instável que oscila entre crises financeiras e estagnação prolongada.
Para compreender esse paradoxo, é necessário examinar com rigor a estrutura fundamental da economia brasileira contemporânea, que permanece ancorada em dois pilares arcaicos e aparentemente contraditórios: o extrativismo mineral e vegetal, herdado do período colonial, e o agronegócio, que representa a modernização capitalista dessas mesmas atividades primárias. Ambos os setores compartilham uma característica comum que explica boa parte do subdesenvolvimento brasileiro: a função primária é exportar matérias-primas a baixo valor agregado, perpetuando a inserção do País na divisão internacional do trabalho como fornecedor de bens primários para as economias industrializadas do Norte Global.
Este artigo propõe uma análise de como esse modelo econômico funciona, por que ele persiste apesar das consequências devastadoras para a maioria da população, e quais são os mecanismos específicos através dos quais o extrativismo e o agronegócio não apenas falham em gerar desenvolvimento, mas ativamente contribuem para aprofundar a miséria e a desigualdade no território nacional.
## A Arquitetura do Modelo Extrativista: Estrutura e Funcionamento
Para entender como o extrativismo e o agronegócio aprisionam o Brasil, primeiramente é preciso compreender a lógica interna desses setores e a posição deles dentro da economia global. O modelo econômico brasileiro contemporâneo não é um acidente histórico ou resultado de escolhas governamentais isoladas; trata-se da estrutura profundamente enraizada em séculos de colonialismo e refinada ao longo de décadas de política econômica que privilegiou a exportação de commodities em detrimento do desenvolvimento industrial e da distribuição de renda.
O extrativismo mineral brasileiro concentra-se majoritariamente em três categorias de produtos: minérios de ferro e outros metais para siderurgia, minérios estratégicos como nióbio e manganês, e ouro e diamantes. O minério de ferro representa a estrela desse setor, com o Brasil ocupando posição de destaque entre os maiores produtores e exportadores mundiais. Empresas como a Vale, originalmente criada como subsidiária da americana U.S. Steel e posteriormente privatizada nas décadas 1990, dominam a extração e exportação desse recurso, operando em larga escala no chamado "Quadrilátero Ferrífero" em Minas Gerais e na região de Carajás, no Pará, onde a extração de ferro se combina com a de outros minérios.
A lógica econômica do extrativismo mineral é aparentemente simples e extremamente lucrativa para os operadores do setor: identificar jazidas, extrair o recurso com o menor custo possível, beneficiar minimamente quando necessário, e exportar para mercados industriais consumidores. O valor agregado nesse processo é ínfimo em comparação com o valor final dos produtos manufaturados que serão produzidos com a matéria-prima brasileira. Uma tonelada de minério de ferro exportada pelo Brasil gera uma receita que representa menos de 5% do valor de uma tonelada de aço laminado produzido na China ou na Alemanha a partir desse mesmo minério. Essa disparidade revela o núcleo do problema: o Brasil participa da cadeia de valor global apenas em sua fase inicial, renunciando aos benefícios econômicos, tecnológicos e sociais que poderiam ser gerados pelo beneficiamento e pela manufatura.
O extrativismo vegetal complementa o mineral na formação do modelo econômico primário brasileiro. Historicamente, o pau-brasil, a borracha, o cacau e a erva-mate definiram ciclos econômicos que moldaram a ocupação territorial do país. Contemporaneamente, a madeira extraída da Amazônia e do Cerrado, a castanha-do-pará, a açaí e o petróleo bruto extraído do pré-sal representam as manifestações atuais dessa tradição extrativista. O que todas essas atividades compartilham é a característica de gerar renda concentrada, emprego precário e impactos ambientais severos, com limitada capacidade de induzir efeitos multiplicadores na economia local e nacional.
## O Agronegócio como Modernização do Modelo Colonial
O agronegócio brasileiro representa a face mais sofisticada e politicamente influente do modelo econômico primário exportador. Diferentemente do extrativismo mineral, que opera predominantemente por meio de grandes empresas capitalistas, o agronegócio articula uma coalizão poderosa que inclui latifundiários tradicionais, investidores financeiros, empresas de agronegócio, trading companies multinacionais, e uma burocracia estatal que atua tanto na formulação quanto na execução das políticas setoriais. Essa configuração confere ao agronegócio a capacidade de reprodução e expansão que transcende os ciclos políticos governamentais, garantindo a continuidade independentemente de qual partido ou grupo político ocupe o poder.
A expansão do agronegócio nas últimas décadas transformou radicalmente a geografia econômica e social do Brasil. O chamado "arco do desflorestamento", que compreende os estados de Rondônia, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Maranhão e Tocantins, assistiu à conversão de vastas áreas de floresta amazônica e Cerrado em monoculturas de soja, milho, algodão e pastagens para pecuária. O estado de Mato Grosso, por exemplo, tornou-se o maior produtor de soja do País, responsável por aproximadamente 30% da produção nacional, em um processo que destruiu milhões de hectares de vegetação nativa e expulsou populações tradicionais e comunidades indígenas dos territórios ancestrais.
A lógica econômica do agronegócio reproduz, em escala ampliada, a dinâmica predatória do extrativismo colonial. A soja brasileira é predominantemente destinada à exportação, principalmente para a China, que absorve mais de 70% das exportações brasileiras do grão. O mercado chinês demanda soja para alimentação animal, visando a atender ao crescente consumo de carnes em sua população. Assim, o Brasil produz soja para alimentar animais chineses, em uma cadeia que demonstra eloquentemente a subordinação da economia brasileira às necessidades de consumo de economias mais desenvolvidas, enquanto a população brasileira permanece excluída dos benefícios dessa produção.
Os números do agronegócio são impressionantes à primeira vista, mas revelam a vacuidade quando submetidos a análise mais detida. O Brasil é o maior exportador mundial de soja, açúcar, café, suco de laranja e carne bovina. Essas exportações geram superávits comerciais expressivos que são regularmente celebrados pelo governo e pela mídia como indicadores de sucesso econômico. Entretanto, esses números mascaram uma realidade mais complexa e perturbadora. O valor das commodities agrícolas brasileiras é definido em mercados internacionais dos quais o País é tomador de preços, não formador. Quando a demanda global aumenta ou quando geografias produtoras enfrentam problemas climáticos, os preços sobem temporariamente, gerando euforia momentânea. Quando a oferta global se expande, como ocorreu com a intensificação da competição com Estados Unidos e Argentina na soja, ou com a expansão da produção de cana-de-açúcar em outros países tropicais, os preços despencam, gerando crise no campo e pressão sobre o balanço de pagamentos.
## Os Mecanismos de Perpetuação da Miséria
A relação entre o modelo extrativista-agronegocial e a miséria brasileira não é acidental nem secundária; trata-se da conexão estrutural e funcional que opera em múltiplos mecanismos interligados. Compreender esses mecanismos é essencial para qualquer análise crítica da economia brasileira e para a formulação de alternativas que possam efetivamente transformar a realidade do país.
O primeiro mecanismo de perpetuação da miséria é a concentração de renda e de terras. O extrativismo e o agronegócio são atividades que apresentam economias de escala pronunciadas, exigindo grandes extensões de terra e volumes de produção para se tornarem competitivas no mercado internacional. No caso do agronegócio, a concentração fundiária atingiu níveis obscenos no Brasil, com menos de 1% dos estabelecimentos rurais controlando mais de 45% de todas as áreas produtivas do País. Essa concentração fundiária não é apenas uma estatística abstrata; ela se traduz em milhões de famílias camponesas expulsas das próprias terras, comunidades indígenas massacradas, em violência rural sistemática, em trabalho escravo contemporâneo, e em êxodo massivo para as periferias das grandes cidades, onde esses expulsos do campo engrossam as fileiras do subemprego e da informalidade urbana.
O segundo mecanismo é a destruição de economias locais e regionais. Quando uma região é integrada à economia de commodities, seja com a mineração ou da monocultura, as atividades econômicas preexistentes são sistematicamente destruídas ou subordinadas. A produção de alimentos para consumo local é eliminada pela competição com produtos de baixo custo vindos de outras regiões ou importados. O artesanato e a pequena manufatura local desaparecem diante de produtos industrializados mais baratos. A economia monetária substitui as trocas solidárias e a produção para autoconsumo que sustentavam comunidades tradicionais por séculos. O resultado é a dependência total de populações locais em relação ao emprego nas grandes propriedades ou em relação a transferências governamentais, em uma situação de vulnerabilidade extrema.
O terceiro mecanismo, talvez o mais perverso, é a captura do Estado e da política pelos interesses do agronegócio e do extrativismo. Os setores primários exportadores desenvolveram ao longo de décadas uma capacidade extraordinária de influenciar a formulação de políticas públicas em benefício próprio. O sistema tributário brasileiro isenta ou reduz significativamente a tributação sobre exportações de matérias-primas, transferindo para a sociedade como um todo o ônus de financiar o Estado enquanto os lucros das commodities são privatizados. Os bancos públicos, especialmente o BNDES, liberaram historicamente linhas de crédito subsidiado para o agronegócio, permitindo a aquisição de terras e máquinas em condições que nenhum outro setor da economia consegue acessar. A legislação ambiental é sistematicamente enfraquecida ou não cumprida, permitindo a expansão das fronteiras extrativas sobre áreas protegidas e territórios indígenas. Os mercados de carbono e os mecanismos de compensação ambiental transformam-se em instrumentos de greenwashing que permitem a continuidade da destruição sob aparência de sustentabilidade.
O quarto mecanismo é a dependência externa e a vulnerabilidade macroeconômica. Por definição, uma economia baseada na exportação de commodities está sujeita às flutuações de preços determinadas em mercados internacionais sobre os quais não exerce qualquer controle. Quando os preços das commodities estão em alta, como ocorreu entre 2002 e 2011 durante o chamado "superciclo das commodities", a economia brasileira cresce, o governo arrecada mais, e há recursos para programas sociais e investimentos públicos. Quando os preços desabam, como ocorreu a partir de 2014 e se acentuou com a pandemia de COVID-19, a receita pública colapsa, o desemprego dispara, e os programas sociais são contingenciados. Essa volatilidade macroeconômica impede qualquer planejamento de longo prazo e condena a população brasileira a ciclos permanentes de esperança e frustração.
## A Falácia do Emprego e do Desenvolvimento Regional
Os defensores do modelo extrativista-agronegocial frequentemente argumentam que esses setores geram empregos e desenvolvimento regional, constituindo-se em motores de crescimento econômico. Essa argumentação, embora sedutora, não resiste a um escrutínio mais detido das evidências empíricas disponíveis. Os empregos gerados pelo extrativismo e pelo agronegócio são majoritariamente precários, mal remunerados e temporários, em contraste com os empregos industriais e de serviços que caracterizam economias mais diversificadas e desenvolvidas.
Na mineração, a automação extensiva reduziu drasticamente a demanda por mão de obra nas últimas décadas. Uma mina de minério de ferro contemporânea pode produzir dezenas de milhões de toneladas anuais com menos de mil trabalhadores diretos, em comparação com operações similares de décadas passadas que empregavam dezenas de milhares de pessoas. Os empregos que permanecem são frequentemente terceirizados, com condições de trabalho precárias e exposição a doenças ocupacionais como a silicose e a asbestose. As comunidades mineradoras experimentam o fenômeno conhecido como "cidade-fantasma", onde a atividade econômica é completamente dependente de uma única empresa, e quando a jazida se esgota ou a operação se torna antieconômica, a cidade entra em colapso irreversível.
No agronegócio, a mecanização extensiva eliminou milhões de empregos rurais nas últimas décadas. A colheita mecanizada de soja, cana-de-açúcar e algodão dispensou a necessidade de mão de obra sazonal que antes empregava milhões de trabalhadores rurais, muitos deles em condições análogas à escravidão. Os trabalhadores que permanecem no campo frequentemente estão empregados em atividades de baixa produtividade e remuneração, em uma situação de extrema vulnerabilidade que os expõe a exploração sistemática por parte de empregadores e intermediários. Os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revelam que a população rural brasileira diminuiu de mais de 50 milhões de pessoas em 1970 para menos de 30 milhões em 2022, enquanto a área agricultável expandiu-se significativamente, demonstrando eloquentemente a relação inversamente proporcional entre modernização do agronegócio e geração de emprego rural.
Quanto ao desenvolvimento regional, as regiões dominadas pelo extrativismo e pelo agronegócio apresentam consistentemente os piores indicadores sociais do país. Os municípios do chamado "arco do desflorestamento" apresentam taxas de analfabetismo, mortalidade infantil e miséria superiores à média nacional, contradizendo a narrativa de que a atividade primária exportadora gera prosperidade regional. A explicação para essa aparente contradição reside no fato de que os lucros gerados pelas atividades extrativas e agronegociais são sistematicamente apropriados por investidores e proprietários que residem em centros urbanos distantes, repatriando a riqueza produzida nas regiões periféricas sem reinvestir localmente. É o fenômeno conhecido como "drenagem de excedente", pelo qual as regiões produtoras de commodities funcionam como colônias internas do país, exportando riqueza enquanto permanecem subdesenvolvidas.
## O Custo Ambiental e Social da Economia Predatória
A análise do modelo extrativista-agronegocial brasileiro não pode prescindir de uma consideração cuidadosa de seus impactos ambientais e sociais, que representam não apenas tragédia humana e ecológica, mas também custos econômicos significativos que são sistematicamente ignorados nas contas nacionais. A destruição ambiental associada ao extrativismo e ao agronegócio gera externalidades negativas que são transferidas para a sociedade como um todo, em uma evidente injustiça que privilegia os lucros privados em detrimento do bem público.
A devastação da Amazônia constitui o exemplo mais emblemático dessa dinâmica predatória. A floresta amazônica, que representa aproximadamente 60% de toda a floresta tropical do planeta e desempenha papel crucial na regulação climática global, está sendo destruída em ritmo acelerado para dar lugar a pastagens bovinas e plantações de soja. A taxa de desmatamento, embora tenha apresentado reduções significativas em alguns períodos devido a políticas públicas específicas, permanece em níveis alarmantes, com estimativas que sugerem a destruição de mais de 20% da cobertura florestal original desde 1970. A perda de biodiversidade associada a esse desmatamento é irreversível e impossível de quantificar em sua totalidade, mas inclui a extinção de espécies vegetais e animais antes mesmo de serem cientificamente identificadas, bem como a eliminação de conhecimentos tradicionais sobre o uso sustentável da floresta acumulados ao longo de milênios pelos povos indígenas.
Os impactos do desmatamento sobre o clima regional e global são igualmente devastadores. A floresta amazônica funciona como um gigantesco reservatório de carbono, armazenando mais de 100 bilhões de toneladas de carbono em sua biomassa e nos solos. Quando a floresta é derrubada e queimada, esse carbono é liberado na atmosfera, contribuindo significativamente para o aquecimento global. Estudos científicos recentes alertam para o risco de "ponto de não retorno" na Amazônia, um limiar a partir do qual a floresta perderia sua capacidade de regeneração e se transformaria em savana, com consequências catastróficas para o clima planetário e para os recursos hídricos de toda a América do Sul. A economia de commodities, ao impulsionar o desmatamento, está literalmente colocando em risco a possibilidade de vida humana civilizada no planeta.
A mineração apresenta impactos ambientais igualmente severos e específicos. Os rejeitos de mineração, armazenados em barragens como as que colapsaram em Mariana em 2015 e Brumadinho em 2012019, representam ameaças constantes às populações downstream e ao meio ambiente. O rompimento da barragem de Fundão em Mariana liberou aproximadamente 40 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério de ferro que percorreram mais de 600 quilômetros até atingir o oceano Atlântico, devastando o Rio Doce e comunidades ribeirinhas em uma das maiores catástrofes ambientais da história do Brasil. Em Brumadinho, o rompimento da barragem B1 da Mina Córrego do Feijão matou 270 pessoas, incluindo trabalhadores da própria mineradora e visitantes de um refeitório que foi atingido pela onda de rejeitos. Essas tragédias revelam a face mais brutal e letal da economia extrativista, que sistematicamente prioriza a redução de custos em detrimento da segurança e da vida humana.
## A Persistência do Modelo: Por Que a Mudança Não Ocorre?
A análise empreendida até aqui suscita naturalmente uma pergunta: por que, diante de evidências tão claras sobre os efeitos devastadores do modelo extrativista-agronegocial, ele persiste como estrutura dominante da economia brasileira? A resposta a essa pergunta envolve múltiplas dimensões que vão desde a economia política até a esfera cultural e ideológica, configurando um sistema de dominação notavelmente resistente a transformações.
A primeira dimensão é o poder econômico e político dos setores que se beneficiam do modelo vigente. Os grandes proprietários de terra, os mineradores, os exportadores de commodities constituem as frações mais ricas e politicamente influentes da sociedade brasileira. Organizações como a Frente Parlamentar da Agropecuária, conhecida como "bancada ruralista", reúnem centenas de parlamentares comprometidos com a defesa dos interesses do agronegócio, conseguindo bloquear reformas fundiárias e tributárias que poderiam transformar a estrutura agrária do país. As grandes trading companies multinacionais que controlam a exportação de commodities mantêm relações estreitas com os principais partidos políticos e governantes, influenciando a política comercial e cambial do país em benefício de seus interesses.
A segunda dimensão é a dependência fiscal do Estado brasileiro em relação às receitas de exportação de commodities. Em um país onde a carga tributária é predominantemente incidente sobre o consumo e a renda do trabalho, as receitas provenientes das exportações de commodities representam uma parcela significativa do orçamento público, especialmente nos momentos de preços internacionais favoráveis. Essa dependência cria incentivos estruturais para que governantes de diferentes orientações políticas mantenham e fortaleçam o modelo primário exportador, mesmo quando reconhecem seus limites e problemas. A tentação de utilizar a receita extraordinária das commodities para financiar programas sociais e obras públicas, garantindo popularidade e reelição, é quase irresistível, ainda que essa estratégia comprometa a diversificação da economia e perpetue a vulnerabilidade externa.
A terceira dimensão é a ideologia do agronegócio como modernização e progresso. Através de sofisticadas estratégias de comunicação e marketing, os setores primários exportadores conseguiram construir uma narrativa segundo a qual representam a vanguarda da modernidade e da eficiência no Brasil. O agronegócio é apresentado como sinônimo de tecnologia de ponta, produtividade extraordinária e inserção competitiva no mercado global. Essa narrativa mascara deliberadamente os impactos ambientais, sociais e econômicos negativos do modelo, apresentando-o como a única alternativa viável para o desenvolvimento do país. A mídia corporativa, em grande medida controlada por grupos econômicos com interesses no setor de commodities, reproduz acriticamente essa ideologia, marginalizando vozes críticas e alternativas ao modelo.
A quarta dimensão é a fragilidade das alternativas concretas e viáveis. Críticos do modelo extrativista-agronegocial frequentemente enfrentam o desafio de propor alternativas que sejam simultaneamente desejáveis e factíveis. A diversificação da economia, a industrialização, a reforma agrária, a economia solidária e os mercados locais representam diretrizes gerais amplamente defendidas, mas sua implementação enfrenta obstáculos formidáveis em termos de investimentos necessários, capacitação técnica, construção de mercados e transformação institucional. Os setores dominantes exploram essa fragilidade das alternativas para argumentar que, por mais imperfeito que seja, o modelo vigente representa a única opção viável para um país das dimensões e características do Brasil.
## Alternativas e Horizontes de Transformação
Apesar dos obstáculos identificados, a história econômica e política demonstra que os modelos de desenvolvimento não são imutáveis, mas sim construções sociais que podem ser transformadas através de ação coletiva organizada. A análise dos limites e contradições do modelo extrativista-agronegocial abre espaço para a reflexão sobre alternativas que possam efetivamente superar a miséria e a desigualdade no Brasil, construindo uma economia mais justa, diversificada e sustentável.
A primeira direção de transformação é a diversificação da economia através da industrialização e da economia do conhecimento. O Brasil possui bases científicas e tecnológicas significativas, com universidades públicas e centros de pesquisa que formam profissionais qualificados em áreas estratégicas como engenharia, biotecnologia, tecnologia da informação e energias renováveis. A política industrial brasileira, abandonada desde o governo Collor e sistematicamente enfraquecida nas décadas subsequentes, poderia ser revitalizada com foco em setores de alto valor agregado que utilizem matéria-prima nacional, gerando empregos qualificados e reduzindo a dependência de importações. O desenvolvimento de uma indústria farmacêutica nacional, por exemplo, permitiria utilizar a biodiversidade brasileira como vantagem competitiva em um mercado global bilionário, em contraste com a situação atual em que empresas estrangeiras patentiam e lucram com produtos derivados da fauna e flora brasileiras.
A segunda direção é a reforma agrária e a promoção da agricultura familiar e agroecológica. A concentração fundiária no Brasil não é apenas uma injustiça social, mas também um obstáculo ao desenvolvimento econômico e à segurança alimentar. A agricultura familiar, embora ocupe apenas cerca de 23% da área agrícola do país, é responsável por mais de 50% dos empregos no campo e por parcela significativa da produção de alimentos básicos consumidos pela população brasileira. Políticas públicas de apoio à agricultura familiar, incluindo crédito rural subsidiado, assistência técnica, garantia de preços mínimos e aquisição para programas de alimentação escolar, poderiam aumentar significativamente a produção de alimentos, gerar empregos no campo, reduzir o êxodo rural e contribuir para a soberania alimentar do país. A agroecologia, que combina conhecimentos tradicionais com técnicas científicas de manejo sustentável, oferece um caminho para aumentar a produtividade agrícola sem os impactos ambientais devastadores do agronegócio convencional.
A terceira direção é a transição para uma economia de baixo carbono e a monetização dos serviços ambientais. O Brasil possui vantagens competitivas naturais em energias renováveis, especialmente solar e eólica, que poderiam substituir progressivamente os combustíveis fósseis na matriz energética nacional. A conservação florestal, especialmente na Amazônia, poderia ser financiada através de mecanismos de pagamento por serviços ambientais, no qual empresas e governos de países emissores de carbono pagariam pela manutenção de florestas em pé. O mercado de carbono, embora ainda incipiente e controverso, representa uma oportunidade para que o Brasil transforme sua abundante cobertura florestal em fonte de renda, em contraste com a lógica predatória que considera a floresta valiosa apenas quando destruída para dar lugar a pastagens ou plantações.
A quarta direção é a democratização do Estado e a construção de contrepoderes populares. Nenhuma transformação estrutural da economia brasileira será possível sem a mobilização popular organizada que enfrente o poder dos setores dominantes. A história do País demonstra que avanços significativos em termos de distribuição de renda e direitos sociais, como os obtidos nos governos Lula e Dilma, foram possíveis apenas devido à pressão organizada de movimentos sociais, centrais sindicais e partidos políticos comprometidos com transformações estruturais. A construção de uma economia diferente exige, portanto, a construção prévia de uma sociedade diferente, na qual os interesses das maiorias populares prevaleçam sobre os privilégios de minorias privilegiadas.
## Conclusão: O Desafio Histórico do Brasil
O Brasil contemporâneo encontra-se diante do dilema histórico que condicionará o futuro nas próximas décadas. A economia baseada no extrativismo e no agronegócio, por mais rentável que possa parecer para alguns setores, conduz inevitavelmente ao aprofundamento da miséria, da desigualdade e da destruição ambiental. Os ciclos de crescimento seguidos de crise, a concentração de renda e terras, a dependência externa, a degradação dos recursos naturais e a violência no campo e nas cidades são manifestações de um modelo econômico que já demonstrou amplamente sua exaustão e inadequação às necessidades do país.
A superação desse modelo não será obra de iluminados governantes nem de reformas técnicas implementadas de cima para baixo. Será o resultado de lutas sociais prolongadas, de organização popular, de construção de alternativas concretas desde já, de articulação entre diferentes movimentos e setores da sociedade comprometidos com transformações estruturais. Os exemplos históricos de países que superaram o subdesenvolvimento, como a Coréia do Sul, Taiwan e mais recentemente a China, demonstram que a industrialização planejada, a reforma agrária e a distribuição de renda constituem caminhos possíveis para o desenvolvimento, ainda que cada país deva encontrar seu próprio trajeto de acordo com suas características específicas.
O Brasil possui todos os recursos necessários para construir uma economia próspera, justa e sustentável. A população é educada, criativa e laboriosa. O território oferece abundância de recursos naturais. Sua história oferece lições sobre os caminhos que não funcionam. O que falta é a decisão política de romper com o modelo colonial que privilegia a exportação de matérias-primas em detrimento do mercado interno, da indústria e da distribuição de renda. Essa decisão, quando tomada, abrirá caminhos para um futuro radicalmente diferente daquele que o modelo extrativista-agronegocial oferece, um futuro no qual a riqueza produzida no território brasileiro sirva para beneficiar a todos os que nele vivem, não apenas uma pequena elite que controla a terra, o subsolo e as exportadoras.
A escolha, em última instância, é política. Cabe à sociedade brasileira decidir se deseja continuar presa à armadilha dourada das commodities, com promessas vazias e consequências devastadoras, ou se deseja trilhar caminhos mais difíceis, mas potencialmente libertadores, que levem a uma economia verdadeiramente desenvolvida em sentido pleno, uma economia que produza não apenas riquezas materiais, mas também justiça social, sustentabilidade ambiental e dignidade humana à população.