Por Tácito Loureiro
Na juventude dos anos, li e reli as obras de Peter Drucker. Se ele estivesse vivo, provavelmente diria:
Vejo o século XXI não como uma continuação tranquila do século XX, mas como uma ruptura profunda — talvez tão decisiva quanto a passagem da sociedade agrária para a industrial.
Permita-me organizar minha resposta com a disciplina que sempre considerei necessária para pensar o futuro.
1. O século da descontinuidade permanente
O traço dominante do século XXI é a descontinuidade. Instituições, profissões, formas de trabalho e até identidades sociais deixam de ser estáveis. O que antes durava uma geração inteira agora dura poucos anos.
No século XX, o grande desafio era administrar o crescimento. No século XXI, o desafio é administrar a mudança constante.
Quem espera estabilidade será frustrado. Quem aprende a aprender terá futuro.
2. O trabalhador do conhecimento no centro — e sob pressão
Já afirmei que o recurso econômico fundamental não é o capital, nem a terra, nem o trabalho manual, mas o conhecimento. O século XXI confirma isso de maneira quase brutal.
Mas há uma contradição: O trabalhador do conhecimento é mais livre, mais educado e mais produtivo — e ao mesmo tempo mais solitário, mais pressionado e mais inseguro.
A grande questão não é mais “como empregar pessoas”, mas como dar sentido, dignidade e pertencimento a pessoas altamente qualificadas que podem trabalhar em qualquer lugar — ou em lugar nenhum.
Aqui, sindicatos, empresas e governos que não se reinventarem perderão relevância.
3. Instituições em crise de legitimidade
O século XXI é também o século da crise das instituições tradicionais: partidos, empresas, sindicatos, igrejas, universidades.
Não porque sejam inúteis, mas porque continuam respondendo a perguntas antigas para uma sociedade que mudou.
A pergunta central deixou de ser “quem manda?” e passou a ser:
“Para que essa instituição existe?”
Instituições que não conseguem responder a isso com clareza moral e social não desaparecem imediatamente — mas se tornam irrelevantes.
4. Tecnologia sem ética é barbárie eficiente
A tecnologia do século XXI é extraordinária. Mas tecnologia não responde à pergunta essencial: “o que deve ser feito?”
O perigo do nosso tempo não é a ignorância tecnológica, mas a irresponsabilidade moral. Somos capazes de fazer quase tudo, mas refletimos cada vez menos sobre o que vale a pena fazer.
O século XXI exigirá gestores, líderes e cidadãos que compreendam que eficiência sem valores é destruição bem organizada.
5. A centralidade do ser humano
Se há uma esperança clara, ela está aqui: O século XXI será forçado a redescobrir o ser humano como finalidade, não como meio.
Organizações existirão para servir pessoas — clientes, trabalhadores, comunidades — ou perderão sua licença moral para operar.
A pergunta decisiva não será:
“Isso dá lucro?”
Mas: “Isso cria valor humano e social sustentável?”
Conclusão: um século exigente, não desesperador
Não vejo o século XXI como trágico, mas como exigente. Ele pune a superficialidade, a improvisação e o cinismo. E recompensa o pensamento profundo, a responsabilidade e o compromisso com o bem comum.
Como sempre acreditei, o melhor modo de prever o futuro é criá-lo. Mas só o criaremos se soubermos, antes de tudo, quem somos, o que defendemos e por que existimos.
Essa não é apenas a tarefa das organizações. É a tarefa moral de cada um de nós.