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Dourados: sem água, sem matas e sem futuro

Publicada em: 27/01/2026 09:36 -

Por: Onildo Lopes*

Como o modelo urbano de Dourados eliminou matas, poluiu nascentes e comprometeu o futuro da cidade.

Persiste no senso comum a ideia de que Dourados é uma cidade “bem arborizada”. Confunde-se árvore isolada em calçada com mata. Confunde-se paisagismo urbano com ecossistema. Árvores são importantes, mas não substituem fragmentos florestais, áreas de recarga hídrica e corredores ecológicos. Cidade alguma se sustenta apenas com sombra.

Dourados não possui parques urbanos com matas efetivamente preservadas. Esse dado, raramente debatido, revela muito sobre o modelo de cidade construído aqui. Quando se decidiu criar um parque, no caso do Parque Antenor Martins — o Parque do Lago — a escolha foi emblemática: suprimiu-se a mata. Em vez de preservar o que existia, optou-se por gramado, concreto e paisagismo controlado. Criou-se um parque sem floresta.

Até o final da década de 1970, a área onde hoje está o Parque do Lago abrigava uma mata densa e um pequeno lago de água limpa. Moradores nadavam ali, brincavam e colhiam frutos nativos, como gabiroba. A supressão dessa área não eliminou um “vazio urbano”, mas um ecossistema funcional e uma relação cotidiana da população com a água e a mata.

O problema não se limita às matas. Os córregos que nascem dentro do perímetro urbano estão todos poluídos. Todos. Transformados, ao longo do tempo, em canais de esgoto a céu aberto. Isso não é acidente nem falha técnica. É resultado direto de um crescimento urbano que ignorou a água e a vegetação como elementos estruturantes da cidade.

Parques urbanos com mata preservada não são luxo nem enfeite. São política pública essencial. Em várias cidades brasileiras, cumprem funções ambientais, sociais e educativas. Campo Grande, por exemplo, possui o Parque das Nações Indígenas. Dourados, apesar de sua importância regional, nunca consolidou um parque com essa função.

Existe, inclusive, um projeto de Parque Ambiental do Córrego Laranja Doce — capaz de proteger a mata ciliar, recuperar o curso d’água e oferecer à população um espaço real de convivência com a natureza. O projeto, porém, segue engavetado. Preservar não gera retorno imobiliário imediato. Mata em pé e córrego limpo não interessam à lógica da expansão urbana acelerada.

O poder público conhece essa realidade. Licenças foram concedidas, ocupações toleradas, compensações ambientais tratadas como formalidade. O discurso da sustentabilidade aparece em campanhas, mas desaparece quando confronta interesses do mercado imobiliário.

Não se trata de falta de informação nem de ausência de projetos. Trata-se de escolhas políticas continuadas, feitas ao longo de décadas, que naturalizaram a destruição e transformaram o verde em adereço.

Mata urbana não é sobra de terreno.

Córrego não é vala.

Parque sem mata é maquiagem verde.

Diante disso, o silêncio também é escolha. Cabe à sociedade civil — moradores, educadores, estudantes, coletivos e universidades — romper essa normalização, cobrar transparência e recolocar o debate ambiental no centro do projeto de cidade.

Se Dourados pretende ter futuro, ele passa, necessariamente, pela preservação de suas matas e de suas águas. O que está em jogo não é paisagem. É qualidade de vida e direito coletivo.

* O autor é professor da rede estadual de ensino.

 

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