O chimpanzé, ao se deparar com um teclado, bate nas teclas aleatoriamente. Eventualmente, por acaso, digita “Shakespeare”. O Ministério das Relações Exteriores de certas potências, ao se deparar com o século XXI, tropeça no mouse, espanta-se com a notificação e, sistematicamente, escolhe a opção “declarar guerra”. A inteligência, claro, é comparável.
Vivemos a era da conexão total. Um tweet atravessa oceanos mais rápido que um míssil. Uma ideia viraliza, desmonta narrativas, une jovens em continentes distintos. Enquanto isso, em salas tapetadas de vermelho, homens sérios de ternos caros apontam dedos gordos para mapas-múndi empoeirados e murmuram: “Precisamos de mais porta-aviões”.
É uma cena de humor ácido. A humanidade atingiu o ápice de sua capacidade de comunicação, criou redes neurais artificiais que escrevem poemas, e a suprema ferramenta diplomática de nossos “estrategistas” continua a ser a ameaça de explosão. É como usar um tijolo para ler um QR Code. A ferramenta é não apenas burra; é anacrônica.
A internet mostrou que o poder real não está mais no controle do território, mas no controle da narrativa. Não está no tanque que esmaga um prédio, mas no vídeo do tanque esmagando o prédio que incendia a opinião pública global e derruba bolsas de valores. Armas são, hoje, falhas de comunicação. São a prova cabal de que a linguagem fracassou. São a resposta idiota para perguntas complexas.
Enquanto a inteligência coletiva constrói Wikipedia, softwares livres e campanhas de financiamento para qualquer causa, o Estado arcaico pensa em “esferas de influência” e “intervenção armada”. É o triunfo da mente de macaco: vê um problema, busca um porrete. Não importa se o problema é econômico, cultural ou climático. O porrete, para essa mentalidade, é a resposta universal.
A grande piada trágica é que essa política externa belicosa, no século da internet, é insustentável. Ela produz o seu próprio fracasso em tempo real. Cada explosão é filmada, cada discurso belicoso é desmontado por fact-checking em dezenas de línguas, cada ameaça gera uma onda de resistência digital que a deslegitima. O Império contra-ataca, mas o Império está sem senha Wi-Fi e não entende por que ninguém o leva a sério.
No final, o macaco com o porrete fica irritado porque os outros primatas não param de rir dele nas redes sociais. Ele balança a arma, grunhe. E o mundo, conectado, segue em frente, deixando-o para trás na poeira da história, um museu vivo da estupidez que teimou em acreditar que a barbárie é um argumento.