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O Inconsciente Coletivo e a Sombra da Nação: Uma Leitura Psicanalítica do Fascismo Brasileiro e seus Caminhos de Superação

Publicada em: 27/12/2025 14:08 -

 

Introdução: A Ferida Narcísica de uma Nação

O fascismo, em sua expressão brasileira contemporânea, não pode ser compreendido apenas como um projeto político racional. Ele é, antes de tudo, uma formação psíquica coletiva, um sintoma que emerge do inconsciente social. É a manifestação de um mal-estar profundo, de uma ferida narcísica nacional não elaborada. Para "acabar" com ele, não basta a política ou a lei; é necessário um trabalho de elaboração psíquica coletiva, uma verdadeira "cura" através do reconhecimento e da integração da nossa própria sombra.

1. O Fascismo como Projeção da Sombra Coletiva (Conceito Junguiano)

A psique coletiva brasileira carrega traumas não resolvidos: a violência fundadora da colonização, a herança escravocrata nunca verdadeiramente reparada, a desigualdade gritante que humilha diariamente. Esses conteúdos dolorosos, vergonhosos e agressivos são reprimidos no inconsciente nacional. O fascismo surge como um mecanismo de defesa psíquica primitivo: a projeção. Em vez de reconhecer e elaborar nossa própria violência histórica e nossa cumplicidade com estruturas opressivas, projetamos toda a maldade, a sujeira e a ameaça em um "outro" internalizado: o comunista, o esquerdista, o "globalista", o defensor dos direitos humanos, o diferente. Este "outro" torna-se o receptáculo de tudo o que não queremos ver em nós mesmos como sociedade. Acabar com o fascismo exige, portanto, um doloroso processo de retirada das projeções e o reconhecimento de que o "inimigo" externo é, em grande parte, uma parte negada de nós mesmos.

2. A Figura do Pai e a Nostalgia do Autoritarismo (Uma Leitura Freudiana)

O apelo a um líder forte, salvador e punitivo revela uma dinâmica edipiana mal resolvida em nível social. É a busca por um "Pai Primordial" (Freud, Totem e Tabu) que prometa ordem em meio ao caos simbólico, que corte o nó górdio da complexidade democrática com a espada da simplificação. A democracia é exigente: ela é o reino da lei simbólica (a Lei do Pai, em termos psicanalíticos), que substitui a satisfação imediata e a vontade individual. Ela exige espera, negociação, frustração. O fascismo oferece um atalho regressivo: a substituição da Lei simbólica e impessoal pela vontade pessoal e caprichosa do líder, que promete gratificação imediata (na forma de vingança contra os "inimigos") e a ilusão de uma comunidade fusionada, sem divisões. Combater isso requer fortalecer a confiança nas instituições enquanto representantes da Lei, e não de homens. É necessário amadurecer, como sociedade, para tolerar a falta de um salvador onipotente.

3. O Gozo do Ódio e a Pulsão de Morte em Ação (Contribuição Lacaniana)

O discurso fascista não oferece apenas ideias; oferece um gozo. Há um prazer perverso na mobilização do ódio, na exclusão violenta, na dissolução dos laços sociais baseados no respeito. É a pulsão de morte, em sua face social, sendo erotizada. As redes sociais são o palco perfeito para essa descarga jouissante (gozosa) de agressividade, onde o sujeito se sente vivo e poderoso ao aniquilar simbolicamente o outro. Esse gozo é viciante e substitui a busca por satisfações mais complexas e simbolicamente elaboradas, como o pertencimento político construtivo ou a solidariedade. Para contrapor-se a isso, não basta o discurso racional. É necessário criar canais socialmente aceitáveis e produtivos para a agressividade (como o debate vigoroso mas regrado, o ativismo político, a crítica artística) e, sobretudo, oferecer narrativas que proporcionem um tipo diferente de gozo: o gozo da criação coletiva, da justiça realizada, do futuro construído. A política precisa recuperar seu aspecto desejante, e não apenas repressivo ou moralizador.

4. O Luto Impossível e a Recusa da Perda

O Brasil é uma sociedade que não elaborou seus lutos históricos. O luto pela democracia interrompida em 1964, o luto pelas vítimas da ditadura, o luto pelo projeto de nação desenvolvida e igualitária que sempre fracassou. O fascismo contemporâneo é, em parte, uma reação melancólica a essas perdas. A melancolia, ao contrário do luto, se recusa a aceitar a perda do objeto amado (a grandeza ilusória, a homogeneidade nacional) e, em vez de internalizá-lo de forma saudável, dirige a raiva contra si mesmo e contra os outros. O discurso do "Brasil que deu certo" versus o "Brasil que foi roubado" é um sintoma melancólico. O caminho para a superação passa pela elaboração desses lutos. É preciso nomear as perdas, chorá-las coletivamente em rituais de memória (como as Comissões da Verdade), e só então poder se voltar para o futuro sem o peso de uma nostalgia tóxica.

Conclusão: A Análise Interminável de uma Nação

Não há cura rápida para uma neurose coletiva. Acabar com o fascismo no Brasil é um processo que equivale à longa e penosa análise de um paciente. Exige que a nação, através de seus intelectuais, artistas, educadores, líderes sociais e de cada cidadão, se coloque no divã da história. Exige que encaremos nossas fantasias de grandeza, nossa recusa da castração simbólica (os limites), nosso gozo com a destruição e nossos lutos não fechados.

A saída não está em encontrar um "inimigo" maior para combater, mas em ter a coragem de olhar para dentro e integrar nossa própria sombra. A democracia, nesse sentido, é a única forma política que tolera a ambiguidade, a divisão e a falta – ela é o regime do sujeito dividido, por excelência. Fortalecê-la é fortalecer nossa capacidade, como coletivo, de viver com nossas próprias contradições, sem a necessidade patológica de projetá-las em bodes expiatórios e aniquilá-los. O fim do fascismo começará no dia em que o Brasil puder olhar para seu próprio reflexo no espelho e, em vez de gritar de horror ou buscar um salvador, puder dizer, com certa serenidade trágica: "Sim, esta sombra também é nossa. O que vamos fazer com ela?".

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