Tocando Agora: ...

## ÁRVORES QUE SANGRAM: QUANDO O ÓDIO À NATUREZA REVELA UMA MENTE EM GUERRA CONSIGO MESMA

Publicada em: 29/11/2025 06:52 -

Imagine o cenário: uma árvore centenária, parte integrante do patrimônio paisagístico e histórico de um bairro, ameaçada por um morador que exige a remoção imediata. A justificativa? "Sombra demais", "folhas sujas a calçada", "raízes que poderiam danificar o muro". Frases banais, recorrentes, que escondem algo muito mais profundo e perturbador: uma pulsão destrutiva que transcende o pragmatismo e mergulha nas entranhas da psique humana.
Não se trata aqui de discutir a validade de podas controladas ou de medidas de segurança. Trata-se de identificar um padrão comportamental alarmante: gente que busca, não a harmonia com o entorno, mas a aniquilação simbólica. Pedir para "arrancar a árvore de frente da casa" não é uma solicitação de serviço público; é um grito de guerra contra um elemento que representa o outro, o diferente, o que escapa ao controle absoluto.
Do ponto de vista psicanalítico, essa demanda revela traços marcantes de narcisismo patológico. A árvore, com a vida própria, o crescimento independente, a sombra protetora e a presença inegociável, torna-se um espelho incômodo. Ela reflete a fragilidade do ego, a impossibilidade de domínio total sobre o mundo. Para o narcissista, qualquer coisa que não seja moldada à imagem e semelhança dele é uma ameaça existencial. Cortar a árvore é, portanto, uma tentativa de eliminar esse "outro" intrusivo, de afirmar a supremacia do próprio self fragmentado.
Há também o componente da pulsão de morte, conceptualizada por Freud. A destruição da árvore pode ser uma manifestação inconsciente de auto-destrução. Ao atacar a vida, a pessoa projeta os próprios impulsos autodestrutivos para fora, transformando o objeto externo (a árvore) em alvo da raiva interna. É mais fácil destruir uma árvore do que enfrentar os demônios interiores.
Além disso, observa-se uma dissociação da realidade concreta. A árvore é reduzida a um problema funcional ("sujeira", "sombras", "danos potenciais"), ignorando o valor ecológico, cultural e afetivo. Esse distanciamento emocional permite justificar a violência contra ela. É a mesma lógica usada em guerras: o "inimigo" é desumanizado para facilitar a eliminação.
A Administração Pública tem um papel importante e urgente: não pode tratar essas demandas como meras reclamações burocráticas. Elas são sinais de alerta de uma mente em crise. Portanto:
1.  Punição Imediata e Efetiva: multas avultadas, obrigação de replantar árvores de maior porte (quando tecnicamente possível), e, em casos graves e reincidentes, medidas legais mais duras devem ser aplicadas. Não se trata de vingança, mas de estabelecer limites claros e proteger o bem comum;
2. Encaminhamento Obligatório para Avaliação Psiquiátrica/Psicoterápica: esta é a parte mais importante. A Administração deve reconhecer que tais demandas não são razoáveis, mas sintomas de um sofrimento psíquico profundo. Deve haver protocolos para encaminhar esses indivíduos a profissionais de saúde mental, sob pena de não prosseguir com o processo de poda/remoção. Isso não é estigmatizar, é oferecer ajuda.
Por que isso importa além da ecologia? Porque uma sociedade que normaliza a destruição gratuita da natureza em nome de interesses pessoais míopes está, na verdade, normalizando a destruição de si mesma. Quando permitimos que o ódio à vida (mesmo na forma de uma árvore) guie nossas ações, estamos abrindo espaço para a proliferação de violência em todas as esferas da convivência.
Arrancar uma árvore saudável e necessária não é um ato de liberdade, é um ato de violência contra a vida e contra a própria sanidade. A Administração Pública deve agir com firmeza, não apenas para proteger o verde urbano, mas para proteger a saúde mental coletiva. E aqueles que clamam pela morte dessas árvores precisam ser entendidos não como "vizinhos problemáticos", mas como pacientes em sofrimento, cujo grito de dor está sendo descarregado sobre um alvo inocente. A cura começa pelo reconhecimento desse sofrimento e pela coragem de direcioná-lo para onde realmente pertence: para dentro, para o encontro com o próprio self em conflito. Somente assim poderemos construir cidades verdadeiramente humanas e verdes.
Compartilhe:
Comentário enviado com sucesso!
Carregando...